O trabalho na balança dos valores
Seria ilusão
imaginar que o conceito de trabalho na história do pensamento ocidental
evoluiu por uma linha coerente, apenas modificada neste ou naquele
ponto da transformação socioeconômica, política ou religiosa. A
experiência do trabalho como esforço para prover a sobrevivência e
enfrentar os desafios cotidianos tem acompanhado a humanidade desde seu
aparecimento, e nas mais diversas culturas teceram-se modos de sentir e
pensar sobre o trabalho. Na encruzilhada de culturas que conviveram em
torno do Mediterrâneo e do Atlântico, do século de ouro da Grécia até o
começo do 21, o conceito apresentou um movimento que neste texto será
indicado apenas de passagem.
Os
preconceitos gregos encontraram alguma expressão no texto dos
filósofos, como na teoria da atividade criadora de Aristóteles: o
artesão é causa motriz da produção, sendo causa material a matéria
sobre a qual opera, e causa formal e final o modelo ou finalidade que
inspira a criação e aparece na obra acabada. Porém, embora na
Antiguidade se encontrem pensamentos sobre a atividade criadora e o
tema comece a tomar importância na modernidade entre reformadores e
humanistas, o trabalho só se afirmaria como objeto da filosofia na
época industrial, quando novas situações políticas, econômicas e
sociais mudam a relação com a tradição.
Da dialética senhor-escravo à condição humana
No século 19, o trabalho estava subentendido nas especulações de Hegel sobre a dialética do senhor e do escravo, como também nas imaginações dos primeiros socialistas. Tornou-se centro das análises de Marx sobre a alienação do trabalho industrial na economia capitalista. Continuou a se desenvolver no século 20 entre discípulos e interlocutores do marxismo, como Marcuse, que complementou a análise do trabalho alienado com a do caráter alienante da produção e do consumo no capitalismo tardio, e Hannah Arendt, que, com suas reflexões sobre a vita activa face à vita contemplativa, remete o leitor à cultura clássica, para repensar a condição do homem moderno.
Em
A condição humana, Arendt retoma a distinção grega das três atividades fundamentais:
labor,
trabalho e
ação. O
labor
é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo do homem
pela sobrevivência, com o fim de manutenção e reprodução da vida. O
modelo é o do camponês sobre o arado, o trabalho na terra. Ressalta a
passividade dessa forma de atividade humana submissa aos ritmos da
natureza, às estações, à intempérie, às forças incontroláveis. O
produto desse esforço é perecível, embora dele dependa a vida de quem
trabalha, por isso não é um trabalho livre. A condição humana do labor
é a vida.
Por outro lado, o
trabalho propriamente dito, que corresponde à
poiesis
grega, significa fazer, fabricação, criação de um produto por técnica
ou arte, e corresponde ao artificialismo da existência humana. Poiesis é a obra da mão humana e dos instrumentos que a imitam. O modelo é o do escultor; por seu resultado concreto, o
fazer
do artista adquire a qualidade da permanência e torna-se presença no
mundo, para além da vida de seu produtor. A mundanidade é a condição
humana do trabalho.
Por sua vez, a
ação ou
práxis
se exerce diretamente entre os homens, sem a mediação das coisas nem da
matéria. Não apresenta um produto concreto, portanto, não possui a
permanência da fabricação. É o domínio da atividade em que o
instrumento é o discurso, a voz e a palavra do homem. Corresponde à
condição humana da pluralidade e realiza a liberdade.
Arendt
também analisa a marca da cultura judaica e cristã na concepção
ocidental da condição humana, em cujos entrelaçamentos se manteviveram
a primazia da teoria sobre a atividade e o menosprezo do trabalho
manual. Na tradição judaica, o trabalho se apresentava como castigo,
meio de expiação do pecado original, labuta penosa à qual o homem foi
condenado. Nos primeiros tempos do cristianismo, o trabalho continuou a
ser visto como punição, embora servindo à saúde do corpo e da alma. Nos
mosteiros medievais, devia ser alternado com a oração e limitar-se à
satisfação das necessidades básicas da comunidade.
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Imagem: Creative Commons
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Labor: segundo Hannah Arendt, o labor é a atividade que corresponde ao processo biológico voltado à sobrevivência. Está submissa aos ritmos da natureza, por isso não é trabalho livre. |
Weber e Marx
Com a ampliação das fronteiras geográficas pelas navegações e a nova percepção do universo pelas descobertas científicas, no Renascimento começaria uma inversão de valores sobre a vida contemplativa e a vida ativa. A inversão moderna tomou, de um lado, integrado ao ressurgimento da cultura antiga, um sentido humanista, em que o trabalho passou a ser visto como expressão da força do homem. De outro, tomou significação religiosa, situando-se no âmago da Reforma Protestante, na qual a moral do trabalho se constrói sobre a convicção de que a dedicação profissional dignifica o homem, dando assim uma nova iluminação à moral cristã. Sobre a relação entre a ética protestante e a ideologia do trabalho no capitalismo, é preciosa a interpretação de Max Weber, oposta à de Marx quanto à relação entre economia e religião.
A análise
crítica do trabalho no mundo industrial feita por Karl Marx, no
entanto, permanece válida e definitiva como denúncia da exploração e da
alienação do trabalho no século 19. Marx não só fez a análise exaustiva
das relações de trabalho na sociedade capitalista, com acréscimo de
conceitos novos como trabalho concreto
e
abstrato,
trabalho morto,
trabalho vivo,
mas em muitos textos deixa transparecer uma teoria antropológica do
trabalho. Como para Hegel, em Marx o trabalho é o fator que faz a
mediação entre o homem e a natureza. Os homens definem-se pelo que
fazem, e a natureza dos indivíduos depende das condições materiais que
determinam sua atividade produtiva. No processo de trabalho, participam
o homem e a natureza; nele o homem inicia, controla e regula as
relações materiais entre si e a natureza; e pelo trabalho se altera a
relação do homem com a natureza. O trabalho é "o esforço do homem para
regular seu metabolismo com a natureza" e assim, por meio de do
trabalho, o homem se transforma a si mesmo.
Hannah
Arendt criticou a forma de Marx encarar o trabalho, basicamente pelo
fato de a análise marxista priorizar a produção em detrimento da ação,
o econômico antes do político, o que reforçaria a tendência do mundo
industrial à transformação de toda atividade em labor e à diluição do
político no social. A tensão permanente em toda a reflexão sobre o
trabalho, que ainda aparece na polarização atual entre as
interpretações de Marx e Arendt, é a da valoração relativa do trabalho
e do ócio como ocasião de realização do homem, criador e livre.
Por um novo conceito de criatividade
A balança dos valores de ócio e trabalho, que assim como era na Antiguidade seria invertida entre os modernos, encontra um ponto de questionamento interessante no manifesto de Paul Lafargue - O direito à preguiça -, no qual, de acordo com as tradições da filosofia e do humanismo, o fundador do Partido Socialista francês faz a crítica da ideologia do trabalho predominante na sociedade burguesa mesmo entre os trabalhadores, instigando à luta pela diminuição da jornada de trabalho.
Quando a
automação toma formas antes nunca imaginadas, com a revolução
cibernética e as novas tecnologias de comunicação, impõem-se hoje
perguntas que a história do conceito não responde e estão dadas como
tarefas para o futuro, ante os desafios do mundo do trabalho
pós-industrial:
Será o
trabalho o único modo justo e digno de prover a sobrevivência? Será o
modo principal de dar sentido à vida? Será o único ou o melhor meio de
alguém se fazer reconhecer como cidadão e como pessoa de bem? Ou
poderiam ser mais valorizados a dedicação à família e aos amigos, a
criatividade no âmbito do convívio e do lazer, a arte pela arte, o
esporte, a participação em atividades comunitárias, os serviços
voluntários, a política, a vida do espírito? Quando se perceber que o
homem trabalhador é mais do que seu trabalho, será possível construir
um novo conceito de criatividade humana apto a dar respostas para as
novas situações deste tempo em que o fantasma do desemprego assombra a
juventude.
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Algumas concepções clássicas de trabalho
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Na
Política,
Aristóteles
afirma que o trabalho é incompatível com a vida livre e defende o ócio,
diferenciando-o da preguiça. Segundo ele, "exaltar a inércia mais do
que a ação não corresponde à verdade, porque a felicidade é atividade".
É no ócio que o homem encontra a virtude, qualidade relacionada à
prática. Para a Antiguidade Clássica, os cidadãos não deveriam ser
artesãos, mercantes ou camponeses, pois não restaria tempo para as
atividades política, filosófica e artística.
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Para
Santo Agostinho,
o trabalho era um preceito religioso. Trabalhar e rezar deveriam ser as
atividades gloriosas de todos os cristãos. Ele considerava a
agricultura a principal atividade humana, verdadeiro ato religioso. O
labor era, portanto, uma forma de impedir que o ócio conduzisse o homem
aos vícios. No livro Sobre o trabalho dos monges, ele apresenta a doutrina do trabalho manual, dissolvendo os argumentos que existiam na época contra esse tipo de labor. |
O
trabalho como garantia de salvação eterna: essa é uma das ideias
presentes da teologia protestante. Para Max Weber, o enaltecimento do
trabalho foi decisivo para o desenvolvimento do capitalismo industrial.
O sociólogo explica que, para o protestantismo de João Calvino, as
habilidades do trabalho devem ser incentivadas, na medida em que são
ofertas divinas. A teoria da predestinação afirma que um dos sinais de
salvação é justamente a riqueza acumulada. Incerto seu destino, o fiel
buscaria, incessantemente, o trabalho e o lucro.
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A ideia de
Hegel,
de que o trabalho é a mediação entre o ser humano e o mundo, está
presente no livro Lições de Jena (1803-1804). Ele afirmava que o
trabalho era uma atividade espiritual e que o homem só podia ser
realmente homem se fosse capaz de satisfazer suas necessidades por meio
do trabalho. Segundo Hegel, que formulou a primeira teoria filosófica
do trabalho, a atividade faz com que o egoísmo seja substituído pela realização das necessidades de todos. A liberdade em sociedade também seria fruto do trabalho. |
A crítica do trabalho no mundo industrial feita por
Karl Marx permanece
definitiva como denúncia da exploração do trabalho no século 19. Marx
fez a análise das relações de trabalho trazendo conceitos novos como trabalho concreto
e abstrato,
trabalho morto,
trabalho vivo.
Como para Hegel, em Marx o trabalho faz a mediação entre homem e
natureza. Os homens definem-se pelo que fazem, e a natureza individual
depende das condições materiais que determinam sua atividade produtiva.
Pelo trabalho se altera a relação do homem com a natureza.
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Em
A condição humana,
Hannah Arendt retoma a distinção grega das três atividades fundamentais:
labor,
trabalho e
ação.
O labor corresponde ao processo biológico do corpo do homem pela
sobrevivência. O trabalho propriamente dito, que corresponde à poiesis, significa
fazer, fabricação, criação de um produto por técnica ou arte;
corresponde ao artificialismo da existência humana. A ação, por sua
vez, se exerce diretamente entre os homens, sem a mediação das coisas
nem da matéria. É o domínio da atividade em que o instrumento é o
discurso, a voz e a palavra.
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Na
Para
O
trabalho como garantia de salvação eterna: essa é uma das ideias
presentes da teologia protestante. Para Max Weber, o enaltecimento do
trabalho foi decisivo para o desenvolvimento do capitalismo industrial.
O sociólogo explica que, para o protestantismo de
A ideia de
A crítica do trabalho no mundo industrial feita por
Em