Menu
redes sociais 2023

“Desafios de 2020 foram enormes”, avalia presidente da Feebbase

15congresso neto 2 1a9fc

A pandemia do coronavírus não foi único grande desafio enfrentado pelos bancários em 2020. A necessidade de isolamento social empurrou grande parte da categoria para o teletrabalho, aumentando a sobrecarga, o medo de demissão e o adoecimento. Os trabalhadores precisaram ainda brigar pela manutenção da Convenção Coletiva de Trabalho, durante uma campanha salarial totalmente virtual.

Nesta entrevista, o presidente da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe, Hermelino Neto, faz um balanço das lutas e conquistas da categoria em 2020 e aponta os desafios para 2021.

Como a pandemia afetou o dia a dia nos bancos?

Hermelino Neto: Durante a pandemia a categoria passou por diversas dificuldades. Por ser serviço essencial, ficou na linha de frente de atendimento à população. Por isso, tivemos muitos casos de infectados e também de vítimas fatais. No primeiro momento, nem todos os bancos conseguiram entregar os EPIs com a agilidade necessária. Então, muitos bancários tiveram que trabalhar em situação de muita insegurança. Alguns sofreram agressões físicas e verbais e sofreram com a sobrecarga causada pela redução do quadro de pessoal, em função de ter uma parcela do grupo de risco ou que coabitavam com grupo de risco. Isso reduziu o quadro e a demanda continuou. Pois, além do auxílio emergencial, muitos aposentados se dirigiam às agências para saques nos caixas ou nas salas de autoatendimento.

Creio que a experiência dos bancários que trabalharam na linha de frente foi muito ruim. Além dos perigos da Covid, ainda tinha a pressão por bater metas e o medo da demissão, já que os bancos não cumpriram o acordo e continuaram demitindo na pandemia. Essa tensão elevou o nível de adoecimento na categoria. Tudo isso faz com que a gente valorize ainda mais os guerreiros bancários e bancárias que não se recusaram a trabalhar em nenhum momento.

Quais ações as entidades sindicais adotaram para preservar a saúde dos bancários?

Hermelino Neto: O Comando Nacional dos Bancários reagiu de forma rápida. Um dia após a OMS decretar a calamidade mundial da Covid, em 11 de março, nós nos reunimos com a Fenaban. Naquele momento, nós já apresentamos uma pauta voltada para o maior número possível de trabalhadores. Reivindicamos que eles fossem para o home office, principalmente aqueles do grupo de risco ou que coabitavam com alguém deste grupo. Neste mesmo mês, milhares foram trabalhar nesta modalidade e depois fomos ajustando outras questões, como a reivindicações dos equipamentos de proteção individual (EPIS), a atenção especial aos trabalhadores que foram infectados, o fechamento e a higienização das agências. Apesar de todo esse cuidado, infelizmente, nós tivemos vítimas do Covid na categoria, isso é lamentável. Perdemos muitos colegas para esta doença. A ação do movimento sindical foi muito rápida e conseguimos manter a questão da negociação muito tempo. Foi um início de ano muito intenso.

Hermelino Neto: Como a pandemia afetou a campanha salarial?

Fazer campanha salarial em processo de distanciamento com a base foi muito ruim. Nós entramos numa campanha, onde o poder de mobilização era muito complexo. Muitos em home office, um quadro reduzido dentro das agências. Como o movimento sindical iria dialogar com esses trabalhadores, no caso de uma campanha salarial que não tivesse um desfecho na mesa de negociação? Como fazer greve em uma pandemia? Tudo isso passou pela nossa cabeça.

Eu tenho certeza de que a Fenaban se aproveitou deste momento e tentou nos apunhalar pelas costas. A pauta da Fenaban era muito agressiva, de retirada de direitos dos trabalhadores que estão na linha de frente, que foram essenciais neste processo da pandemia. Foram os bancários que fizeram o dinheiro circular, que garantiram que economia não parasse totalmente. Imagina os bancos fechados? Seria um caos.

Foi uma campanha dificílima e nós fomos afetados sim. Mas, apesar das dificuldades, o desfecho da campanha foi muito bom para a categoria. Conseguimos manter a nossa CCT intacta, não tivemos prejuízos financeiros, pois conseguimos um abono este ano e vamos ter ganho real em 2021. Conseguimos também realizar grandes encontros e conferências, tanto interestadual quanto nacional e envolvemos a categoria em outros debates. Isso foi muito bom.

Mas sabemos que com o nosso poder de mobilização, certamente poderíamos ter arrancado mais. Tenho certeza de que se não tivéssemos na pandemia o nosso resultado seria melhor.

Quais as principais conquistas da campanha 2020?

Hermelino Neto: Quero destacar o nível de organização da nossa categoria. Isso foi fundamental. A primeira conquista veio logo no início das negociações, quando foi confirmada a mesa única de negociação com bancos públicos e privados juntos. Isso foi muito importante. Outra conquista importante foi manutenção da CCT e dos ACTs com redações praticamente iguais às da campanha anterior 2018/2020, apenas com pequenos ajustes.

Nós presenciamos ataques a outras categorias e retirada de direitos neste mesmo período da nossa campanha. Então, podemos afirmar que fomos vitoriosos, pois, apesar da conjuntura totalmente desfavorável, de um ambiente de muitas ameaças, de truculência, por parte da Fenaban, nós mantivemos os nossos direitos. Com isso, a categoria foi mais uma vez referência para a luta dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil.

Quais os impactos do home office na categoria?

Hermelino Neto: Acho que a pandemia acelerou esse processo em quatro ou cinco anos. O que iria acontecer nos próximos anos, com a pandemia, os bancos colocaram em prática agora.  Mas, é uma realidade. A gente já percebeu os impactos da ausência de contato com os colegas e o ambiente externo na saúde dos trabalhadores. A casa não é ambiente de trabalho, mas ambiente de lazer, de descanso, de convívio com a família. Trazer o trabalho para dentro de casa causou muitos problemas.

Nós vamos acompanhar e estudar como isso vai se desenrolar depois da pandemia, quando as coisas retornarem à normalidades. Como vai afetar os trabalhadores que querem ter este contato com os colegas e forem obrigados a ficar em casa. Achamos que isso trará muitos problemas na saúde do trabalhador, mas só teremos certeza disso nos próximos anos. O que sabemos é que isso é necessário para muitos nesse momento. Os impactos serão vistos mais a frente e tenho um receio muito grande de que isso gere a perda de postos de trabalho.

 

Quais os desafios se apresentam para 2021?

Hermelino Neto: Os trabalhadores estão sentindo na pele muitas dificuldades. Desde o golpe de 2016, as agendas dos governos foram para atacar os direitos dos trabalhadores, para retirar esses direitos, e isso não será diferente em 2021. Isso requer muita unidade do movimento sindical e social. Unidade para enfrentar esses ataques que devem se acentuar. Os patrões, embora não assumam, sabem que é o governo deles, com a agenda prioritária de retirada de direitos, de perseguição aos trabalhadores e sindicatos.

Temos também que discutir 2022. Discutir o que queremos em 2022 e o que podemos fazer para tornar realidade um projeto de desenvolvimento para o país, com geração de emprego, defesa do SUS, da educação e das empresas públicas, a defesa da democracia e da soberania nacional. Tudo isso vai estar na nossa agenda.

Os desafios serão enormes, mas esses desafios não têm a ver apenas com as demandas economicistas, com as bandeiras dos trabalhadores, mas estão em sintonia com os nossos anseios de mudança. Isso exige muita unidade e a capacidade de dialogar com pessoas que pensam diferente de nós, mas que poderão se aproximar. Esse ano será de pegar toda nossa energia e esperança e fazer com que tudo isso possa crescer, para a gente avançar e mudar esse cenário de caos e retrocesso que entrou na agenda do Brasil. Esse cenário que vem prejudicando toda a sociedade, mas, em especial, as pessoas mais pobres. A inflação está lá em cima, as pessoas estão passando necessidade. O nível de pobreza cresceu muito e nós estamos caminhando para o caos social. É preciso se rebelar contra tudo isso, ir á luta em defesa dos direitos dos trabalhadores e das pessoas que mais precisam. São muitas coisas que precisamos tratar em 2021.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar