Bancos facilitam renegociação de dívida atrasada
A nova escalada da inadimplência e o aumento do endividamento das
famílias levaram bancos, varejistas e operadoras de cartão de crédito a
flexibilizar as condições para recuperar o crédito em atraso. Vale um
pouco de tudo: de prazo mais longo para o pagamento até a extinção da
cobrança de multa ou de outras taxas, num movimento que só encontra
paralelo na época do Plano Collor, quando a economia entrou praticamente
em colapso depois do confisco da poupança. A taxa de inadimplência das
pessoas físicas chegou a 7,64% em abril deste ano, acima dos 6,12%
registrado no mesmo mês do ano passado, mostram dados do Banco Central
(BC).
Segundo profissionais de mercado, o parcelamento das
dívidas, que antes era de no máximo três meses, passou a ser de 12 vezes
na média. Mas há casos em que o alongamento chega a 24 meses. Os juros
de mora, de 10%, chegam a ser zerados em alguns casos. A mesma regra
funciona no caso das multas, que antes equivaliam a 2% sobre o valor do
débito.
- Nem na crise de 2008 houve tanta boa condição, talvez
porque a perspectiva era de melhora mais rápida na inadimplência naquela
época - afirma Jair Lantaller, presidente do Instituto Igeoc, que reúne
18 das maiores empresas de recuperação de crédito do país.
Ele
acrescenta que esse movimento ganhou corpo nos últimos dois meses, com
as notícias de novo repique dos índices de inadimplência.
As
condições da renegociação variam de banco para banco. No Banco do
Brasil, por exemplo, até meados de abril era cobrada taxa de 3% ao mês
na renegociação a título de mora. Agora, essa taxa é de 2,4% mensais,
diz Rodolfo Scheidemantel Neto, gerente de reestruturação de ativos do
banco estatal.
- Isso muda de cliente para cliente. Mas
conseguimos colocar essa taxa menor na renegociação por causa da nova
conjuntura econômica e dos menores patamares da taxa básica (Selic) -
explicou Scheidemantel Neto.
Taxa reduzida para quem foi demitido
Na
Losango, financeira do HSBC e que também faz o serviço de cobrança, as
regras de renegociação estão mais flexíveis de dois meses para cá. Se o
motivo do atraso é a perda do emprego, a empresa promete oferecer melhor
prazo ou taxa menos salgada. Hilgo Gonçalves, executivo-chefe da
Losango, explica que a intenção da financeira é cada vez mais "buscar
uma solução para cada tipo de cliente".
- A política de
reparcelamento de dívidas pode ser feita em até 24 meses. Como exemplo,
podemos citar um consumidor em atraso de até 180 dias, que na Losango
recebe desconto nos encargos de até 75% e o novo parcelamento em um
prazo de até 18 meses com taxa de 1% ao mês - conta ele.
Um
reflexo das melhores condições de renegociação é o aumento do índice de
recuperação de crédito. De acordo com a Boa Vista Serviços, que
administra o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), os registros
retirados (quitados) de seu cadastro cresceram 15,9% nos primeiros
cinco meses do ano, enquanto a entrada de novos inadimplentes subiu 12%
no período.
- Os números se inverteram neste ano. Em 2011, o
número de inclusão nos registros foi maior que a retirada: cresceu
22,4%, enquanto a retirada de cadastro negativo teve alta de 18,4% - diz
Flavio Estevez Calife, economista da Boa Vista Serviços.
Mesmo
com facilidades extras, tudo indica que a queda da inadimplência será
mais gradual neste ano do que em outros períodos. Diferentemente da
crise iniciada em 2008, em que a inadimplência foi causada por uma
abrupta escassez de crédito na economia e depois caiu rapidamente quando
o fluxo financeiro retornou, o novo patamar de calote foi causado pela
expansão, por vezes desordenada, do crédito. Tanto que o Ministério da
Fazenda está desenhando um pacote de medidas que deve ser batizado de
"reestruturação da inadimplência". Embora o Planalto não abra os
detalhes, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou em uma
audiência no Senado na segunda quinzena de maio que ocorrerão alterações
nos sistemas de portabilidade de crédito, o que ampliaria a
concorrência entre os bancos e reduziria ainda mais as taxas.
-
Muitas pessoas que não tinham condições de se endividar tomaram
empréstimos, o que gerou a massa de inadimplentes em 2011 - diz Luiz
Rabi, economista da Serasa Experian.
O presidente do Igeoc diz
que, além da perspectiva de uma maior demora para a queda dos índices de
inadimplência, o próprio fato de o número de pessoas com mais de uma
dívida ter crescido criou uma espécie de corrida para conquistar o
inadimplente.
- Uma pessoa que tem duas dívidas com condições
diferentes vai dar preferência para quitar aquela que oferecer melhores
termos - afirma.
Apesar do nível de inadimplência ter crescido, o
calote medido pelo Banco Central ainda não chegou ao nível mais alto. A
taxa que mede os empréstimos com mais de 90 dias em atraso da pessoa
física, e que chegou a 7,64% em abril deste ano, ainda está distante do
pico de 8,54% atingido no auge da crise econômica, em maio de 2009.
-
Hoje, o spread bancário é calculado para cobrir uma taxa de até 11% de
inadimplência. Por isso, há tanta gordura para se queimar sob a forma de
melhores condições de renegociação - diz Altamiro Carvalho, economista
da Fecomercio-SP, lembrando que a queda dos juros também favorece.
Entre
as modalidades de crédito, a situação é grave no financiamento
automotivo. Em abril, a inadimplência atingiu 5,86%, o maior nível da
série histórica do BC, que começa em 2000.
- A inflação reduziu o
poder aquisitivo e a inadimplência subiu, mesmo com o desemprego menor -
diz Décio de Almeida, da Associação de Financeiras das Montadoras
(Anef).
Fonte: O Globo

