Bartíria se torna a 1ª mulher a presidir a Conam
Pela primeira vez em 26 anos, o movimento comunitário terá uma mulher à frente de sua principal entidade. Os 2.100 delegados do 10º Congresso Nacional das Associações de Moradores elegeram a líder comunitária Bartíria Perpétua Lima (RJ) para a presidência da Conam. Ela vai suceder Wander Geraldo, que presidia a entidade desde 2002.
Por André Cintra
Após três dias de atividades, o congresso foi oficialmente encerrado neste domingo (25), no Ginásio Municipal de Esportes de Lauro de Freitas, município da região metropolitana de Salvador (BA). Bartíria encabeçou a chapa única e ampla que definiu a composição da diretoria, com 63 membros - 21 deles na direção executiva. Também foram eleitos os 110 nomes que vão compor o Conea (Conselho Nacional de Entidades Associadas da Conam). Trata-se da segunda mais importante instância de deliberação da entidade, atrás apenas do congresso.
Em ato simbólico, os diretores tomaram posse no sábado (24), logo após serem eleitos. Além de independentes, a direção tem nomes das mais variadas vertentes, como PCdoB, PT, PSB e PDT, mais lideranças locais de PPS, PR, PMDB e outras forças. "Esse resultado é fruto de muita unidade, construída na percepção do dia-a-dia, nos debates, nas plenárias, com a participação de todos", declarou ao Vermelho a nova presidente da entidade.
Aos gritos de "Conam urgente / Bartíria presidente", o plenário praticamente se antecipou ao momento de votação e aclamou, por unanimidade, o nome que vai presidir a Conam no triênio 2008-2011. Filiada ao PCdoB (partido com mais expressão na entidade), Bartíria valorizou a formação da "ampla chapa" aclamada no congresso. "Apesar de nossa força política, não demonstramos arrogância em nenhum momento. Fizemos concessões e buscamos a amplitude. Nenhum movimento funciona sem diálogo", frisou. "Com todas as diferenças naturais, foi uma grande vitória."
Preparação exemplar
Devido às limitações financeiras, o 10º Congresso da Conam teve certas dificuldades nas áreas de alojamento e alimentação. Nada disso, porém, ofuscou o encontro - talvez o mais politizado, consensual e pródigo na história da entidade. Parte do êxito deve ser creditada à fase de preparação.
As cerca de 200 emendas às teses, por exemplo, foram feitas nas 400 plenárias municipais - e não no plenário ou nos grupos temáticos do congresso. "Além de democratizar os debates, esse regulamento ajudou a agilizar - e muito - os trabalhos. Eu diria que, uma vez no plenário do congresso, 98% das propostas foram acatadas por unanimidade", afirma Wander Geraldo.
"As nossas bandeiras saem fortalecidas", completa Bartíria. "Como na maioria das votações não houve discordâncias nem abstenções, podemos dizer que a base do movimento está contemplada. O congresso, na verdade, concretizou propostas e idéias que já estavam amadurecidas nas associações de bairro, nas entidades municipais e nas federações."
Um evento prestigiado
O Congresso de Lauro de Freitas foi, acima de tudo, representativo. Das 27 unidades federativas do Brasil, apenas dois estados ficaram de fora - Roraima não tirou delegados, enquanto Santa Catarina ficou impossibilitada de enviar representantes. Ausências à parte, 77% dos 2.700 delegados eleitos participaram do congresso - índice "muito bom", na opinião de Wander Geraldo.
"Uma parte não tem mesmo condições de se deslocar, o que é natural e compreensível", explica Wander. "Mesmo assim, a Conam está mais enraizada e fortalecida do ponto de vista político - até porque ajudou a construir a unicidade no movimento comunitário em todo o país. Não é à toa que, ao fim do congresso, se ecoava a palavra-de-ordem "Um, dois, três / Quatro, cinco mil / A Conam está presente em cada canto do Brasil".
Para Wander Geraldo, outra marca do encontro foi a participação de autoridades das mais distintas vertentes. O ato político, na noite de quinta-feira (22), contou com representantes da Secretaria-Geral da Presidência da República, dos ministérios da Saúde e da Cidades, parlamentares, dirigentes sindicais, além de lideranças e especialistas nas áreas de reforma urbana, habitação, saúde, transporte, entre outras. A prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho (PT), marcou presença.
Atendendo aos "olhares"
Bartíria, por sua vez, chamou atenção para o respaldo que a Conam conquistou para além do movimento comunitário no Brasil. "Vieram de outros países, especialmente para o Congresso da Conam, dirigentes do Fórum Mundial do Direito à Energia e da AIH (Aliança Internacional de Habitantes) - órgãos aos quais a Conam é filiada." A AIH, por sinal, tratou especialmente da Conam em seu último newsletter (boletim via internet) para a América Latina.
De acordo com Bartíria, a Conam também se projetou na cena nacional. "Vamos herdar e dar continuidade a uma gestão, comandada pelo Wander e POR outras lideranças, que teve uma política muita ajustada." Desde seu congresso de fundação - que elegeu Almir de Barros como o primeiro presidente da entidade, em janeiro de 1982, no Ginásio do Pacaembu, em São Paulo -, a Conam só evoluiu. O que Bartíria assume agora é uma Conam que está presente em todos os estados do Brasil e congrega nada menos que 550 entidades municipais, representando mais de 20 milhões de pessoas.
"Nosso desafio é dar conta dessa grande expectativa", resume ela. O começo não podia ser melhor. Bartíria toma posse no primeiro congresso da história da Conam realizado na região Nordeste. "Atendemos a uma antiga reivindicação do movimento, e isso é uma lição para todos nós. É preciso manter esses olhares para o movimento comunitário de todo o Brasil."

