Campanha pede adesão contra o projeto de reativação da Quarta Frota
"Atualmente a Quarta Frota encontra-se subordinada ao "Comando Sul dos EUA", e tem como atracadouro a base naval de Mayport no norte da Flórida. Ela se somará a outras cinco frotas navais espalhadas por regiões estratégicas do mundo que proporcionam apoio logístico e militar para as aventuras bélicas do imperialismo estadunidense". Quem explica é Rubens Diniz, diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).
O Centro, juntamente com outras entidades, realiza uma campanha que busca apoio mundial contra a Quarta Frota. Nesta entrevista a ADITAL, Rubens Diniz aprofunda mais o assunto.
Adital - Mesmo com reações contrárias dos próprios governos, o retorno da Quarta Frota vem se tornando uma realidade. O que significa sua reativação?
Rubens Diniz - Para nós do Cebrapaz a reativação da Quarta Frota tem objetivos muito bem definidos. Esta vinculada diretamente com as recentes descobertas realizadas pelo Brasil de grandes reservas de petróleo em águas da plataforma continental, o chamado "pré-sal".
Os argumentos dados pelas autoridades estadunidenses de que a Quarta Frota irá "cumprir missões de ajuda humanitária" não passam de um engodo. Por que prestar auxílio humanitário com navios de guerra?
O que fica claro é que a reativação da Quarta Frota em uma região de paz como é a América Latina tem como objetivo a intimidação dos governos e dos povos desta região. Não devemos esquecer que os motivos das últimas guerras de agressão realizadas pelos EUA tiveram como objetivo o controle de fontes energéticas, (concretamente o petróleo), e o domínio de fluxos e rotas comerciais. Além disto, tem como objetivo manter a primazia da hegemonia norte-americana e evitar a consolidação de um pólo contrário aos seus interesses no continente.
Adital - Acredita que o momento político e de mudanças pelo qual passa o continente latino-americano tenha influenciado nesta tentativa de retorno?
Rubens Diniz - Sim, a reativação da Quarta Frota é uma forma dos EUA de responder através do uso do poderio bélico à nova realidade política existente na região. A reativação da Quarta Frota é um desdobramento da chamada "Doutrina Bush", arcabouço de ideias que fundamentava a estratégia dos ataques preventivos e que buscava em última instância evitar o surgimento de novos pólos de poder que pudessem concorrer com os EUA.
A situação na América Latina saiu do controle dos EUA nos últimos anos. Fruto das lutas sociais e dos governos progressistas e anti-imperialistas, a região tem avançado na consolidação de um bloco regional que busca maior autonomia frente ao imperialismo estadunidense. A convergência de iniciativas como o Mercosul, a UNASUL e a ALBA e a constituição de políticas como o Banco do Sul, Conselho Sul-americano de Defesa fazem da região um verdadeiro "Continente Rebelde". A doutrina do pan-americanismo foi posta em cheque pela nova realidade política da região.
Adital - Há uma campanha pela soberania e contra a Quarta Frota em curso? Que resultados esta campanha tem demonstrado?
Rubens Diniz - Sim, temos desenvolvido uma campanha em conjunto com distintos movimentos sociais, reafirmando a defesa de nossa soberania e exigindo a desativação da Quarta Frota. Através da Coordenação dos Movimentos Sociais - CMS, o Cebrapaz tem impulsionado uma campanha que neste primeiro momento tem como objetivo informar o que é a Quarta Frota e conscientizar dos perigos que ela traz para nossa soberania e das ameaças à paz de nossa região.
Criada no ano de 1943, em pleno período da Segunda Guerra Mundial pela marinha de guerra dos EUA, a Quarta Frota tinha como objetivo, naquele momento, proteger a região de possíveis ataques marítimos das forças do eixo nazi-fascista. Sua desativação ocorreu em 1950, após o fim da Segunda Guerra Mundial.
O Cebrapaz tem realizado seminários, feito publicações com o intuito de produzir subsídios à luta contra esta máquina de guerra. Em nosso site http://www.cebrapaz.org.br/ é possível encontrar distintos materiais e a agenda das iniciativas que tomamos sobre o tema.
Além disto, no mês de julho o Cebrapaz ira realizar seu congresso nacional, na cidade do Rio de Janeiro, ele será antecedido de assembléias estaduais aonde estaremos debatendo o que representa a Quarta Frota e as formas de atuarmos pela sua desativação.
Adital - É possível que uma mobilização em nível continental possa dar conta do que representa o retorno nos navios de guerra? Como isso pode acontecer?
Rubens Diniz - Acreditamos que somente com a participação popular, dos movimentos sociais organizados em toda a região é que poderemos criar condições para que a Quarta Frota seja desativada. Nossa estratégia tem sido participar de todas as reuniões de cúpulas presidências da região no espaço da Cúpula dos Povos, de encontros como o Fórum Social Mundial, com o intuito de impulsionar um movimento continental contra a Quarta Frota
Adital - Existe algum tipo de movimento integrado entre os países contra a Quarta Frota?
Rubens Diniz - Nossa atuação a nível regional tem sido feita a través do Conselho Mundial da Paz (CMP), da Campanha pela Desmilitarização das Américas (CADA) e da Aliança Social Continental. Somente com a ação organizada de movimentos das mais distintas naturezas é que poderemos impor uma derrota ao imperialismo e desativar a sua frota de guerra que se encontra por nossas águas.
Os povos da América latina têm um profundo apego à paz, ao respeito, à soberania. Nosso desafio e transformar a indignação existente contra estas armas de guerra em ação organizada. Sabemos, contudo, que o imperialismo não é invencível e que pode ser derrotado.

