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Encontro Vozes que transformam

Carestia deixa longe Metas do Milênio

Patrícia Grogg

Havana, 22/04/2008(IPS) - A carestia mundial dos alimentos e da conta do petróleo implica um retrocesso significativo no caminho rumo às Metas do Milênio e eleva o custo de programas de cooperação, reconheceram dois funcionários do sistema das Nações Unidas acreditadas em Cuba.

Enquanto o barril de petróleo se manteve a mais de US$ 100, o arroz branco tailandês de segunda qualidade era cotado nos últimos dias a US$ 854 a tonelada, o leite integral em pó a US$ 4.750, o milho amarelo a US$ 250, e o trigo a US$ 401 a tonelada, quase o dobro do que custava há um ano.

O impacto é duplo e dificulta os esforços nacionais para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, disse Susan McDade, coordenadora residente do Sistema das Nações Unidas em Cuba. O primeiro ODM fala em reduzir à metade a proporção de população indigente e que passa fome em todo o mundo, entre 1990 e 2015. Em entrevista coletiva dada sexta-feira, a funcionária afirmou que as nações pobres dependem muito das importações de petróleo, cujos preços atuais afetam a balança de pagamentos, a educação, os serviços de saúde, o transporte e a produção, entre outros setores, de modo que o impacto negativo é sobre o conjunto dos ODMs.

Essas metas foram adotadas pela comunidade internacional na sessão especial da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas de setembro de 2000, como uma grande plataforma para erradicar a pobreza, a fome e a desigualdade e proteger o meio ambiente em todo o mundo. Algumas das metas incluem garantir até 2015 a educação universal de meninos e meninas, reduzir a mortalidade infantil, assegurar a igualdade de gênero, melhorar a saúde materna, combater a Aids, a malária e outras doenças, e garantir a sustentabilidade ambiental.

Segundo dados da ONU, 862 milhões de pessoas sofrem forme no mundo, das quais 52 milhões vivem na América Latina e no Caribe. Estas pessoas vivem com menos de um dólar por dia e para elas os preços atuais são "verdadeiramente críticos", alertou Myrta Kaulard, representante do Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas, que desenvolve campanhas de emergência em cerca de 80 países. Kaulard disse que carestia também está afetando os projetos do PMA no mundo todo, pois precisou elevar seu orçamento deste ano de US$ 2,9 bilhões para US$ 3,4 bilhões. "Mas, o reajuste foi feito no começo de março e os preços continuaram subindo", acrescentou.

Kaulard apresentou à imprensa o projeto de apoio ao plano do governo cubano para a prevenção e o controle de anemia em crianças de seis meses a cinco anos nas cinco províncias orientais do país, Guantânamo, Santiago de Cuba, Granma, Holguín e Las Tunas. Essa porção do território cubano é considerada mais vulnerável em matéria alimentar, e a maior prevalência de anemia (62,6%) se registra em meninos e meninas de seis a 12 meses, seguida das idades entre 12 e 24 anos, com 53,4%. A menor, em crianças de 5 anos, é de 13%.

O programa, de cinco anos de duração e financiamento de US$ 11,5 milhões, inclui o fornecimento mensal gratuito de um cereal fortificado a essa população infantil e apoio financeiro para a construção de uma unidade processadora do alimento, elaborado à base de milho e soja e enriquecido com vitaminas e cereais. A fábrica será construída com investimento de US$ 1,5 milhão em Bayamo, cerca de 757 quilômetros a leste de havana, com capacidade inicial para produzir uma tonelada por hora. Enquanto implementa esta instalação, dentro de um ano, o PMA importará o cereal da Argentina. O projeto do PMA conta até o momento com doações e contribuições da Rússia, Espanha, Canadá e Agência Suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação (Cosude).

Orlando Requeijo, vice-ministro cubano para Investimento Estrangeiro e Cooperação, disse que o PMA não trabalha apenas para emergências, mas também fortalecendo as capacidades de desenvolvimento e este projeto, se funcionar, será uma "referência" possível de se aplicar em outros países. Por sua vez, Kaular explicou que Cuba encontrou "mecanismos próprios" para garantir a alimentação de sua população de 11,2 milhões de pessoas, uma referência à caderneta de abastecimento que a preços subsidiados se oferece a todas as famílias da ilha. As importações cubanas de alimentos somam cerca de US$ 1,6 bilhão ao ano.

Na entrevista coletiva foi anunciado que o governo cubano doou ao PMA, pela décima-primeira vez, 2.500 toneladas de açúcar cru, no valor aproximado de US$ 1 milhão. O produto será destinado a reforçar a entrega de alimentos que atualmente este programa executa na Coréia do Norte a na Colômbia. Havana apóia desde 1996 os projetos do PMA com a entrega anual de quantidades semelhantes de açúcar, o que permitiu ajudar países com Republica Dominicana, Jamaica, Honduras, Haiti, Etiópia e Angola, entre outros. (IPS/Envolverde) (FIN/2008)

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