Domésticas: Menores de idade à mercê de abusos dos patrões
Queimaduras, unhas amassadas na porta e a língua cortada com um
alicate são as marcas que Lucélia Rodrigues da Silva carrega do tempo
em que foi torturada dentro de um apartamento de luxo na capital
goiana. Ela tinha apenas 10 anos quando saiu da família para morar com
uma empresária. As promessas de estudo, roupas, presentes e uma vida
melhor começaram a se dissipar logo. Em pouco tempo, Lucélia passou a
fazer os trabalhos da casa, ao mesmo tempo em que era agredida. O caso
mostra, de uma forma extrema, as consequências de um problema não
apenas tolerado, mas estimulado pela sociedade: o trabalho infantil
doméstico. Embora a violência suportada por Lucélia, hoje com 17 anos,
não atinja todas as 257 mil crianças e adolescentes brasileiros
ocupados nesse segmento, os prejuízos são incalculáveis.
“Muitas famílias pegam a criança ou a adolescente para pagarem menos
que o salário mínimo, não assinarem carteira. E ainda tentam dar ao
gesto um caráter nobre, dizendo que estão ajudando a menina”, critica
Antonio de Oliveira Lima, procurador do trabalho no Ceará. Ele não
ignora a situação de pobreza de muitas trabalhadoras infantis, defende
escolas em tempo integral e outras políticas públicas e condena a
conivência de quem explora essa mão de obra. “É um trabalho que se dá
com 100% de prejuízo do direito fundamental que é a convivência
familiar e comunitária, as garantias trabalhistas não são respeitadas,
sem falar no risco de assédio moral e sexual e de abandono escolar.
Fora que muitos trabalhadores domésticos, mesmo os adultos, não são
tratados como seres humanos”, completa.
Mais passíveis de
terem os direitos desrespeitados, as trabalhadoras de pouca idade
padecem de um outro problema que também aflige parte da categoria já
adulta: a falta de uma jornada de trabalho regulamentada — ao
contrário das outras profissões que têm carga máxima estabelecida em
44 horas semanais. Um quarto das domésticas brasileiras ultrapassam
esse limite, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), sem ganharem nada a mais por isso porque também não
têm direito a horas extras ou adicionais noturnos. “O que ocorre é uma
autorização estatal para o subemprego”, afirma o sociólogo Joaze
Bernardino Costa, professor da Universidade de Brasília.
A
justificativa dos legisladores, desde a concepção da Constituição de
1988, que negou às empregadas tais direitos, era de que o trabalho
doméstico, ao contrário de outros, não tem caráter lucrativo, como uma
empresa. O argumento, porém, é cada vez menos considerado, o que levou à
aprovação unânime de uma proposta de mudança constitucional na última
semana em comissão da Câmara dos Deputados. “O discurso não tem a ver
com lucratividade, e sim com uma postura discriminadora e machista.
Muita gente quer ser servida, mas não quer pagar de forma justa pelos
serviços de quem cuida dos filhos, dos idosos, dos animais e dos seus
bens patrimoniais”, afirma Creuza Maria Oliveira, presidente da
Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad).
Fome
Elisa (nome fictício), uma doméstica de Coroatá, leste do Maranhão,
sabe o que é não ter hora para trabalhar. Quando foi para uma casa em
Teresina, onde olhava um bebê e ajudava na limpeza, só tinha folga de
15 em 15 dias. Mas se dava bem com os empregadores. O problema era nos
fins de semana, na casa da sogra da patroa, que lhe chamava às 6h.
“Ela me acordava com o dia clareando. A criança ainda estava dormindo,
mas eu tinha que levantar para arrumar a casa dela. Chorava muito
nesse tempo, ela me tratava mal. Só que eu aguentava”, lembra Elisa.
A moça de 26 anos fala que a pior recordação do período diz respeito à
hora das refeições. “Eu só comia depois que todo mundo comesse. E
eram sempre as sobras, comida fria, horrível mesmo. A quantidade, eles
que colocavam. Passei muita fome lá”, afirma Elisa. Sete meses
depois, ela pediu para ir embora. Sem carteira assinada, saiu com uma
“mão na frente e outra atrás”. Encorajada por uma amiga que estava em
Brasília, embarcou rumo à capital em um ônibus de turismo. “Pedi R$
200 emprestados a um amigo. Deixei com ele o cartão do Bolsa Família
dos meus filhos por garantia. Mas antes de um mês aqui, já tinha
quitado minha dívida com ele”, conta Elisa.
Desde 2000 no
Distrito Federal, Elisa está feliz. Mas nem tudo foram flores para a
maranhense. Depois de trabalhar durante um ano fichada para uma
família em um condomínio de classe média próximo ao Plano Piloto,
decidiu sair, por não querer continuar dormindo no serviço. A patroa,
então, fez as contas, adiantou cerca de R$ 1 mil dos R$ 2,2 mil que
devia e pediu que ela assinasse um papel dizendo ter recebido tudo.
Elisa aceitou. “Eu ia viajar para ver meus parentes, precisava do
dinheiro. Além do que, confiava que eles iam me pagar. Quando o
restante não chegou na minha conta, comecei a ligar. Mas aí ela (a
patroa) disse que estava sem condição, que não tinha de onde tirar.
Depois disso, eles me pagaram algumas parcelas, mas não tudo. Desisti
de cobrar o pouco que resta. Levei um calote mesmo, mas não tenho raiva
deles”, diz a mulher, que atualmente trabalha em outra casa de
família, no Guará.
Sem fiscalização
A atividade doméstica
está na lista de piores formas de trabalho infantil estabelecidas em
2008 pelo governo brasileiro por meio de um decreto. Ao contrário da
exploração da mão de obra de crianças e adolescentes nos semáforos,
nas plantações de cana, nas carvoarias, o trabalho doméstico é de
difícil fiscalização por dois motivos. Primeiro porque ele se dá no
domicílio, local inviolável onde fiscais do Ministério do Trabalho,
entre outros órgãos, não podem entrar. Em segundo lugar, mesmo que
fosse permitido, haveria uma dificuldade operacional. “Não temos
equipes para inspecionar mais de 200 mil lares no Brasil”, diz o
procurador do Trabalho Antonio de Oliveira Lima.
“Eu só comia
depois que todo mundo comesse. E era sempre as sobras, comida fria,
horrível mesmo. A quantidade, eles que colocavam. Passei muita fome lá
(Teresina)”
Elisa*, empregada doméstica que atualmente trabalha em Brasília
Três perguntas para
Lucélia Rodrigues da Silva, ex-empregada doméstica
Como era seu dia a dia nos quase três anos na casa de Silvia Calabresi (atualmente presa por torturar a menina)?
No começo, quando eu estudava, levantava às 6h, arrumava a casa até
11h, depois tomava banho e ia para a escola. Quando voltava, brincava
com o filho dela. Mas, depois que não podia estudar mais, acordava às
6h e ia até 1h, 2h da manhã limpando a casa. Não tinha hora para
almoço, não tinha hora para nada. Era como se eu fosse um bichinho, que
ela dava comida na hora que quisesse.
Mas havia tanto serviço para fazer?
Eu limpava o banheiro, o chão, as paredes, tudo com a mão, sem rodo.
Na cozinha e na sala eu não ia. Só ficava na parte de cima. O
apartamento era muito, muito grande. Tinha dois andares. Aí quando eu
terminava tudo, ela mandava recomeçar. Passava barro nas coisas,
sujava tudo que eu tinha acabado de limpar.
O que você sente por ela?
Nada. Não tenho raiva, nem ódio, nem mágoa. Às vezes, eu lembro, sonho
com ela, tenho pesadelos. Aí tiro aquele pensamento da minha cabeça.
Mas não desejo nada pra ela. Isso é passado. Moro com meu pai, estudo,
trabalho. Estou namorando. Minha vida é outra.
Como é no mundo
A configuração do trabalho doméstico no Brasil e na América Latina
não se repete em nações mais desenvolvidas por várias questões. “Além
do avanço social e econômico que cria oportunidades em outras áreas,
Canadá, Estados Unidos e grande parte da Europa trabalham com políticas
que incentivam a mulher a ficar em casa. Ou há equipamentos públicos.
Nos países nórdicos, por exemplo, o sistema de creches é amplo. Na
Alemanha, onde não há cobertura de creches, todas as mães recebem um
incentivo pecuniário para cuidar do filho até os três anos”, explica
Tatau Godinho, da Secretaria de Políticas para as Mulheres.
Fonte: Correio Braziliense

