Estudo mostra que bancários estão revertendo perda histórica
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Imaginemos que o conjunto dos bancários tivesse uma grande conta no sistema financeiro. Os bancários e bancárias seriam o maior cliente, depositando nesta conta diariamente o maior valor que um banco pode ter: o trabalho. Este trabalho gerou lucros astronômicos para o sistema financeiro nos últimos anos, estando o país em crise ou não. Mas, mesmo ganhando muito, o sistema financeiro está em dívida com os bancários e não deixa o trabalhador sacar o seu próprio dinheiro da conta. |
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Os banqueiros dizem que não
podem autorizar o saque porque vão quebrar, porque não têm dinheiro,
porque a crise internacional está aí. Restaria aos trabalhadores
entenderem isso e colaborar. Se os bancários e bancárias quiserem sacar o
dinheiro de que precisam e que o sistema historicamente lhes deve, a
receita dos bancos é clara: vão ter que trabalhar mais, descansar menos,
atingir metas que só ficam mais abusivas até ficarem doentes. E daí,
rezar para não serem demitidos. É assim que os banqueiros tratam seu
maior e melhor cliente: exigem que o trabalhador deposite todo o seu
valor numa grande conta e não querem nem ouvir falar em dividir o lucro e
recuperar as perdas no piso acumuladas nos últimos 18 anos.
O Dieese realizou um levantamento dos reajustes salariais obtidos pelos bancários nas campanhas desde 1995 no BB, Caixa e bancos privados (veja as tabelas no final desta matéria). O estudo mostra exatamente o quadro ilustrado nos dois parágrafos iniciais deste texto. Os setores públicos e privados estão em dívida com o trabalhador. Algumas evidências sobressaem dos percentuais conquistados pelos bancários nos últimos 18 anos. Os anos de neoliberalismo de FHC (1994-2002) foram cruéis para a categoria, a ponto de os bancários ainda lutarem para recuperar as perdas da política de estado mínimo e de desmonte.
Outra conclusão aponta a importância da greve e da unidade nacional
da categoria na ampliação dos índices de reajuste do piso. Desde 2003,
os bancários mantêm nacionalmente greves de grande repercussão
ininterruptamente. Não por acaso, a partir de 2004, a categoria deu
guinada nos reajustes e, há nove anos, conquista aumentos reais.
Registre-se que o Dieese leva em consideração em seus estudos os
reajustes obtidos pelos bancários nos Acordos Nacionais em relação ao
Índice de Custo de Vida (ICV-Dieese) e o INPC-IBGE (Índice Nacional de
Preço ao Consumidor) para calcular o aumento real. O presidente do SindBancários, Mauro Salles, exalta a organização da categoria em nível nacional como um dos fatores que explicam as sucessivas vitórias nas data-base, assim como a unidade e a capacidade de mobilização. “Há 20 anos os bancários nacionalmente dão exemplo de unidade com as negociações coletivas em nível nacional. O que um bancário ganha no Rio Grande do Sul o outro lá de Rondônia também ganha. Montamos todos os anos um comando de representação nacional para irmos à mesa de negociação com a Fenaban. Temos tido êxito, como os números mostram. Mas ainda temos um caminho longo a percorrer para recuperar nossas perdas dos últimos 18 anos”, avalia Mauro.
Outra evidência do levantamento do Dieese é que, no conjunto dos
bancos privados, a série histórica revela aumento real. Diferentemente
do que ocorre na Caixa e no Banco do Brasil, bancos públicos nos quais
os trabalhadores amargam perdas no saldo de reajustes dos últimos 18
anos. Desde 1995, as perdas e ganhos deixaram um saldo positivo em relação ao ICV, de 1,66%, nos bancos privados, além de aumento real de 6,23% no que se refere ao INPC. Nos últimos 18 anos, os reajustes dos bancários chegaram a 307,75%, ante inflação de 301,09%, pelo ICV, e INPC de 283,84%. Como dito acima, os bancos privados têm oferecido reajustes seguidos. Mas também podem temer mais do que os públicos os efeitos de um piquete bem organizado em frente a alguma agência.
Piores anos
Os anos em que os trabalhadores mais sofreram foram aqueles em que o governo neoliberal de FHC aplicou um truque. Quando o Plano Real ganhava a mídia, em 1995, os bancários da Caixa receberam o maior reajuste do período do estudo do Dieese. Com 20,94% de aumento na Caixa, a série histórica poderia ter iniciado com os maiores ganhos e inaugurar um ciclo virtuoso de aumentos reais no piso dos bancários. Nada disso aconteceu. No BB, este primeiro ano trouxe reajuste de 25%, e os trabalhadores dos bancos privados conquistaram 30% de aumento.
Mas foi justamente neste segundo ano de Plano Real (1995) que o ICV
(28,14%) e o INPC (25,8%) bateram recordes. Resultado: as perdas deste
período foram mascaradas pelo índice de reajuste e incidiram sobre a
política de propaganda de êxito de um modelo econômico de austeridade e
de eliminação de benefícios sociais. O ano em que os bancários tiveram o
maior reajuste foi o ano em que houve a maior desvalorização do salário
em comparação com a inflação. Falamos de 1995.
Enquanto os maiores reajustes dos 18 anos prenunciariam ganhos sucessivos nos anos seguintes, a real intenção foi amortecer a luta dos trabalhadores ante o pior ciclo de inflação do período abordado pelo estudo do Dieese. Sem conseguir controlar a inflação, o governo FHC, em seus primeiros anos, disfarçou a perda. O índice de aumento foi alto, mas a inflação também esteve entre as maiores do período.
Para se ter uma ideia, em 1998, FHC instituiu o Proer, socorro de
bilhões de reais ao sistema financeiro, sustentado política e
midiaticamente com um discurso de crise cuja inércia chega à mesa de
negociação ainda hoje. Entre 1996 e 2001, penúltimo ano do governo FHC,
1998 foi o único ano com reajuste, mas não sem perdas. Os bancários da
Caixa só conseguiram 1% de reajuste em seis anos, apesar da luta, ante
ICV de 56,31% e 46,24% de INPC durante todo o período. Os trabalhadores dos bancos privados tiveram reajustes maiores, mas nem por isso deixaram de acumular perdas. Somando os percentuais de reajustes entre 1996 e 2001, os trabalhadores dos bancos privados conquistaram 40,37% nos seis anos de consolidação do Plano Real. No entanto, as perdas foram somente menores, considerando os índices inflacionários tomados como referência. Portanto, nos anos FHC, nunca houve aumento real para os bancários, mas só as maiores perdas. Os bancários correm atrás do tempo perdido até hoje. Mudança de modelo
O levantamento do Dieese demonstra que a chegada de Luiz Inácio Lula
da Silva à presidência legou uma reversão no quadro de perdas dos
bancários a partir do segundo ano de gestão (2004). As perdas se
seguiram na transição dos dois modelos econômicos. Na Caixa, por
exemplo, em 2002 e 2003, respectivamente, houve reajustes de 5% e 12,6%.
Mesmo assim, não houve aumento real para os bancários da Caixa: -2,28%
(2002) e -2,51% (2003), segundo o ICV, e -3,81% (2002) e -4,19% (2003),
pelo INPC. Apesar de a luta dos trabalhadores dos bancos privados para conquistar aumentos sucessivos nos anos de FHC, as perdas também eram constantes e se mantiveram na transição de um modelo a outro. Foram de 0,42% (2002) e de 2,51% (2003), pelo ICV. Nos mesmos dois anos, o INPC registrou perdas dos trabalhadores dos bancos privados de 1,98% (2002) e de 4,19% (2003), pelo INPC. A partir de 2004, a história dos reajustes do piso dos bancários mudaria no compasso da história do país. Um processo de redução dos índices inflacionários, com estabilidade dos preços e crescimento econômico desenhou um quadro favorável para o aumento real sustentável dos bancários. Não coincidentemente, emerge outro fator de grande importância para a sucessiva recuperação das perdas dos tempos neoliberais. Desde 2004, portanto, há nove anos, os bancários mantêm greves nacionais anuais. Luta e unidade
A repercussão da mobilização dos bancários se verifica nos aumentos
reais conquistados. À exceção do aumento real para os trabalhadores dos
bancos privados em 1995 (1,45%, pelo ICV, e 3,34%, pelo INPC), os dez
anos anteriores (1995 a 2004) haviam sido de acumulação de perdas para
os bancários do BB e da Caixa. Mas, a partir de 2004, começa um ciclo de
aumentos reais. Desde então, são nove anos de sinais positivos nos
percentuais que reduzem do reajuste os índices inflacionários (ICV e
INPC). Porém, esses sucessivos ganhos não foram suficientes para
reverter o estrago que o neoliberalismo provocou nos salários dos
trabalhadores.
Outra regularidade pode ser obtida da leitura dos gráficos: os acordos coletivos passaram a ser obtidos de forma unificada para toda a categoria no Brasil a partir de 2003. Em 2004, com a consolidação do modelo econômico do novo governo, começa o período de aumento real. Sinal da importância do Comando Nacional dos Bancários nas negociações com a Fenaban. Mas sinal também de algo que é tão importante quanto conquistar reajustes. Manter a mobilização e a força da greve, o nosso verdadeiro instrumento de pressão por melhores salários. E não esquecer nunca que ainda precisamos lutar muito para recuperar perdas históricas.
*SindiBancários - RS
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Banco
do Brasil e Caixa, como informado, têm uma dívida histórica com os
trabalhadores. Os sucessivos reajustes nacionais positivos em termos
reais a partir de 2004, nestes dois bancos, ainda não foram suficientes
para recuperar as perdas que o governo FHC causou. No Banco do Brasil,
os bancários ganharam 184,11% de reajuste entre 1995 e 2012, acumulando
perda de 29,17% (ICV) e de 25,98% (INPC).