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Everaldo Augusto: Mobilidade urbana vai além de metrô e ônibus

Um projeto de mobilidade urbana para Salvador precisa ser plurimodal e sustentável. Que leve em conta não apenas a questão do metrô e do ônibus, mas que incorpore outras formas de transportes até hoje invisíveis, do ponto de vista das políticas públicas, como é o caso da bicicleta. A afirmação é do ex-vereador comunista Everaldo Augusto, que falou com o Vermelho Bahia, nesta sexta-feira (9/9), sobre os problemas de mobilidade na cidade, que será uma das sedes da Copa do Mundo da Fifa de 2014.


Everaldo Augusto

Everaldo Augusto

Vermelho: Como você vê a questão da mobilidade urbana em Salvador?
Everaldo Augusto: É uma questão decisiva para que Salvador consiga dar uma resposta ao rápido crescimento que ela experimentou nos últimos anos, com adensamento populacional e que não teve o correspondente planejamento do espaço urbano para que este crescimento causasse o menor impacto possível e preservasse a qualidade de vida das pessoas. Então, é um crescimento do ponto de visto geográfico e econômico e da população, principalmente em algumas áreas. Um crescimento vertiginoso do número de automóveis na cidade, que a cidade já não suporta.

É preciso encontrar saídas e as saídas passam por diversas questões. Podemos discutir, como nós já discutimos no PDDU, como descobrir outros vetores de crescimento para a cidade, sem convergir apenas para este vetor Iguatemi-Barra. Uma outra solução seria dotar a cidade também de uma política sustentável de mobilidade urbana, para permitir o deslocamento de pessoas de maneira rápida, eficiente, não poluente e barata também. Para que as pessoas pudessem se deslocar para o trabalho, casa, lazer, estudos e outras atividades cotidianas sem que isso fosse um transtorno para a população. Então a mobilidade urbana é uma questão estratégica para as grandes cidades. E para Salvador, sobretudo, se coloca como um grande desafio para o Poder Público, para que a cidade se prepare para o rápido crescimento que ele enfrenta.

Vermelho: Tudo isso que você falou passa pela adoção de um sistema de transporte público eficiente. Hoje existe a discussão sobre a adoção de metrô ou corredor de ônibus na Paralela. Esta seria mesmo a solução para os problemas de mobilidade em Salvador?
EA: Nós temos ai algumas propostas, que eu considero de conteúdo estratégico para resolver o problema da mobilidade urbana em Salvador. O governo do estado tem uma proposta que vai além de Salvador, passa pela região metropolitana e no decorrer do tempo, também se implica com um sistema de transporte mais estadual e interestadual. Este seria o projeto do governo do estado, da qual o projeto para Salvador. Assim como existe também um projeto da prefeitura de Salvador, que vem sendo constituído ao longo do tempo. Embora o projeto da prefeitura restrinja-se apenas a Salvador e tem como prioridade apenas a questão do ônibus. O projeto do governo do estado tem abertura para outros modos de transporte.

O que estamos discutindo hoje, tanto no ambiente da Câmara de Vereadores, da Assembleia Legislativa e instituições como CREA e universidades, é que Salvador precisa de um projeto de mobilidade urbana plurimodal, que consiga compatibilizar vários tipos de transportes. Desde o transporte marítimo, na Baía de Todos os Santos, ao de ônibus, de trem (que já existe no Subúrbio Ferroviário), o metrô (e que não seja apenas este metrozinho de 6km), mas também o modo de transporte do BRT, oVLT e que tenha também o aspecto da sustentabilidade. Que se insira neste projeto de mobilidade urbana a questão da bicicleta, que é o meio de transporte mais saudável, barato e que faz parte da solução de mobilidade urbana em todo o mundo.

Outro aspecto é preparar o espaço urbano para receber o deslocamento das pessoas a pé: que é o conceito de acessibilidade. E que seja adotado este conceito no sentido mais amplo de preparar as calçadas para as pessoas andarem nos bairros, mas também para atender às pessoas com necessidades especiais, como cadeirantes, idosos, crianças, etc. O que nós pensamos como um projeto de mobilidade urbana para Salvador, ele é plurimodal e sustentável e que incorpora outras formas de transportes até hoje invisíveis do ponto de vista das políticas públicas, como é o caso da bicicleta.

Vermelho: Quando você era vereador, você apresentou um projeto para a criação de ciclovias na cidade. Como anda esta discussão hoje?
EA: Nós apresentamos um projeto de um Sistema Cicloviário em Salvador. Era um projeto de criação de ciclovias em um projeto muito maior de mobilidade urbana. Era a bicicleta sendo aceita como meio de esporte e transporte na cidade e que ela se incorpore dentro de um sistema de transporte público de pessoas. É um sistema, que dentro do nosso projeto é composto de ciclovias, ciclofaixas, faixas exclusivas e bicicletários.

Defendemos também que o poder público leve em conta a presença da bicicleta na construção de espaços públicos. As estações de transbordo terem bicicletários, também trens, ônibus e os elevadores, como o Lacerda, permitam o transporte de bicicletas. É um projeto abrangente e multidisciplinar. Nele consta a necessidade e a responsabilidade do poder público de desenvolver políticas de educação da população. Desenvolver uma política de aceitação da bicicleta na cidade, este também é um grande problema que se tem. Há uma supremacia do carro e os motoristas não aceitam bem as bicicletas. A proposta é incorporar a bicicleta no dia a dia da cidade.

Quando apresentei o projeto ele não teve sucesso, pois o contexto político era outro. Mas este ano, foi reapresentado na Câmara de Vereadores, por outro vereador, o mesmo projeto, com os mesmos artigos, as mesmas medidas e para a felicidade geral da cidade ele foi aprovado. Este é um passo importante para que a cidade tenha um sistema que propicie o uso da bicicleta como meio de esporte lazer e transporte.

Outro aspecto fundamental, é que o contexto mudou e ajudou a aprovar este projeto. São aspectos como a preparação da cidade para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. A Fifa tem um conceito de Copa Verde, que é de incentivar o deslocamento das pessoas para os estádios de bicicletas. Tem ainda o aspecto do governo do estado está interessado na solução da bicicleta. Existe um projeto da Conder, chamado Cidade Bicicleta, que é feita para várias regiões do estado. Para Salvador, vai dotar a cidade de 217 km de ciclovias e ciclofaixas..

Vermelho: O seu projeto, agora aprovado por outro vereador, dialoga com os projetos do governo do estado e da Fifa?
EA: Este projeto, podemos dizer assim, é a parte que falta no projeto da Fifa e da Conder. É o arcabouço jurídico municipal traçando a responsabilidade do poder público municipal perante esta questão da ciclovia, ciclofixas e das bicicletas. É um componente importante, pois você pode ter iniciativas do estado e da Fifa, mas não ter nenhuma receptividade da prefeitura em relação a isso, o que ocasionaria impasses jurídicos e dificuldades na aplicação. Então, o Sistema Cicloviário de Salvador é um dos componentes importantes neste sistema que está ai proposto. No caso da Conder, o Cidade Bicicleta e no caso da Fifa, uma série de medidas mais gerais para evitar a emissão de CO2, carbono, para deslocamento a pé para os estádios e a bicicleta tem tudo a ver com isso.

Vermelho: Toda a discussão de mobilidade urbana leva em conta apenas os meios motorizados de locomoção ou no máximo a bicicleta. Existe alguma discussão para preparar a cidade para o pedestre andar a pé ou para as pessoas com necessidades especiais?
EA: Existem sim. Existe uma Comissão Municipal de Acessibilidade, que tem a participação do CREA, Câmara de Vereadores e muitas outras instituições, cujo foco principal é discutir a questão de acessibilidade, dentro do conceito de preparar as ruas para todos. Acessibilidade não é apenas uma rua para o cego andar com a sua bengala, é muito mais do que isso. A comissão tem levantamento sobre os principais problemas nas ruas do centro da cidade e inclusive já ofereceu os dados para a prefeitura, a alguns anos atrás, para tentar a adoção de medidas para tornar o centro de Salvador um local em que o homem possa dividir as ruas com os carros, o que hoje não é.

Existe também, relacionado ao centro de Salvador um projeto de macro acessibilidade, que é pegar toda aquela área a partir do Porto ao estádio da Fonte Nova e fazer uma série de intervenções para recuperar calçadas, instituir ruas sem o trânsito de carros, ciclovias, recuperação de equipamentos públicos e muitas outras coisas. É um projeto que já tem plano de serviço, verba e está a cargo da Conder.

Estas são iniciativas importantes, mas isto só não resolve. Nós estamos falando de Centro Histórico e Centro, mas tem o problema de muitos bairros, onde não existem calçadas para o pedestre andar. A solução do problema pressupõe não apenas iniciativas concretas do poder público, mas também a educação das pessoas de ajudar no aspecto da convivência e também de passarem a reivindicar um espaço na cidade para elas, com equipamentos públicos. Eu acho que estas propostas devem ser pontos de partida para outras medidas desta natureza. Mas o fato é grave, só como exemplos, não é possível andar do Iguatemi até a Rótula do Abacaxi, porque não tem calçadas para isso. O mesmo acontece em alguns trechos do Bonocô.

Vermelho: Todo processo de discussão da mobilidade urbana em Salvador está pautado nas obras para a Copa de 2014. Como você encara isso, é mesmo o momento de aproveitar os investimentos que estão vindo para a Copa ou é preciso pensar a cidade para antes?

EA: Nós temos que pensar a Copa como indutor de recursos públicos em áreas estratégicas. No caso da cidade de Salvador para solucionar problemas graves, um deles é a questão da mobilidade urbana. A Copa como elemento para atrair investimentos para a cidade, pois é possível fazer a Copa sem resolver os problemas de mobilidade na cidade, como aconteceu na África do Sul.
É importante que existam projetos em andamento para resolver os problemas de mobilidade urbana, do transporte de pessoas pela cidade, independentemente da realização da Copa ou outro evento. E esta tomada de consciência já vem sendo feita.

A partir de investimentos do governo federal para solucionar uma parte dos problemas de mobilidade, começa-se a discutir outras propostas estratégicas para a cidade. Não pode ser uma questão imediatista. Você precisa adotar medidas duradouras. Primeiro, porque não dá para tomar medidas sobre o assunto a curto prazo porque elas não se sustentam, depois precisaria de mudanças. Uma medida desta natureza não pode deixar de lado a questão da sustentabilidade, da preservação do espaço urbano para as pessoas. Não pode deixar de lado a questão do meio ambiente, de tornar o espaço público agradável e saudável para as pessoas viverem e se deslocarem. Então é melhor que se demore para a adoção de medidas, mas elas precisam ser duradouras.

Vermelho: Você então acha que a questão da mobilidade em Salvador vai muito além da escolha entre metrô ou BRT?
EA: Vai muito além disso. A polarização entre os dois modais é equivocada e pode está levando em conta apenas interesses econômicos, que geralmente são distintos dos interesses da maior parte da população da cidade, que despreza outro elemento da sustentabilidade da mobilidade urbana, que são justamente os outros modos de transporte. Isso vai além do BRT e VLT em vias exclusivas. Iniciativas mais modernas de mobilidade em cidades até menores que Salvador vão nesta linha de ser plurimodal.

De Salvador,
Eliane Costa

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