Governos e trabalhadores europeus pagam custo de orgia do setor financeiro
O governo espanhol anunciou a redução de 5% dos salários dos funcionários públicos, o congelamento de salários e o corte de investimentos públicos para enfrentar a crise econômica que afeta o país. Na Grécia, sindicatos convocam quinta greve geral contra corte de pensões anunciado pelo governo. Para analista do Financial Times, origem da crise da dívida dos governos é a prodigalidade de amplos segmentos do setor privado, e do setor financeiro, em particular. “Os mercados financeiros financiaram a orgia e, agora, em pânico, estão se recusando a financiar a faxina resultante”, diz Martin Wolf.
O primeiro ministro José Luis Rodríguez
Zapatero, anunciou, dia 12 de maio, no Parlamento espanhol, a redução em
5% dos salários dos funcionários públicos em 2010, o congelamento de
salários e um corte de 600 milhões de euros em investimentos públicos em
2010. Também fazem parte do pacote de medidas para reduzir os gastos
públicos o congelamento das pensões (de aposentadoria) e a suspensão, a
partir de 2011, do chamado “cheque bebê”, que, desde 2007, concedia
2.500 euros para cada criança nascida na Espanha. Zapatero pediu ao povo
espanhol “um grande esforço de austeridade” para enfrentar a crise
econômica que afeta o país. As centrais sindicais espanholas protestaram
contra as medidas e anunciaram grandes mobilizações de rua contra elas.
Zapatero
foi pressionado pela União Européia e pelos Estados Unidos a tomar
essas medidas para defender a “estabilidade do euro”. No dia 12 de maio,
o presidente dos EUA, Barack Obama, ligou para Zapatero para
“conversar” sobre as medidas. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert
Gibbs, a conversa tratou “da situação da Espanha e da importância, no
contexto europeu, dos esforços para fortalecer a economia européia e
devolver a confiança aos mercados.” Gibb revelou ainda que Obama
conversou também com a chanceler alemã, Ângela Merkel e com o presidente
francês Nicolas Sarkozy para tratar do impacto da crise na União
Européia. Os EUA, disse o porta-voz, estão preocupados com a situação
das finanças públicas da Espanha, dado o peso do país na zona do Euro.
Com
esse conjunto de medidas, o governo espanhol pretende economizar cerca
de 15 bilhões de euros até 2011. Em 2009, o déficit público da Espanha
chegou a 11,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, após três anos
seguidos de superávit (no período pré-crise). Agora, o governo espanhol
assumiu o compromisso de reduzir esse índice para 3%, atendendo a uma
exigência da União Européia. Em janeiro, Zapatero já havia anunciado um
plano que previa a redução de 10% na contratação de funcionários
públicos, aumento de impostos e a redução do orçamento para 2010. Com o
agravamento da crise na Grécia e em outros países da Europa, as medidas
foram consideradas insuficientes pelas autoridades da UE. O
aprofundamento do arrocho fiscal deve ter um alto custo político para
Zapatero.
Greve geral na Grécia
Sindicatos e centrais e
sindicais já anteciparam qual deve ser a reação diante do plano de
arrocho salarial e fiscal. O secretário geral da central sindical União
Geral dos Trabalhadores (UGT), Cándido Méndez, disse que as medidas
afetarão duramente milhares de famílias e anunciou a convocação de
grandes mobilizações de protesto nas próximas semanas. Na mesma linha,
Ignácio Férnandez Toxo, secretário geral da central sindical Comissiones
Obreras (CCOO), classificou o plano do governo Zapatero como “injusto e
anti-econômico” e antecipou protestos massivos nas ruas da Espanha. Já a
Comissão Européia e o Banco Santander fizeram praticamente o mesmo
comentário a respeito das medidas anunciadas pelo governo espanhol: “vão
na boa direção”.
Se os sindicatos de trabalhadores espanhóis
começam a cogitar a possibilidade de organizar uma greve geral, na
Grécia, uma nova paralisação nacional foi convocada, em protesto contra
medidas similares adotados pelo governo. Será a quinta greve geral desde
o início do ano. A União dos Empregados Civis (Adedy), central
sindical dos trabalhadores do setor público, e a Confederação dos
Trabalhadores (GSEE), central sindical do setor privado, convocaram a
greve geral como resposta às medidas governamentais de cortes nas
pensões. “A nossa reação é imediata, respondemos com uma greve geral de
24 horas”, anunciou o presidente da Adedy, Spiros Papaspíros. A nova
greve geral foi convocada para o dia 20 de maio.
Origem da
crise está no setor privado
Os pacotes de arrocho anunciados por
Grécia e Espanha repetem uma história bem conhecida: a maioria da
população é chamada a pagar por erros cometidos por setores privados.
Quem confirma isso é Martin Wolf, editor e principal analista econômico
do Financial Times. No artigo “Governos aumentam riscos” (Valor
Econômico, 12/05/2010), Wolf destaca as conclusões de Paul De Grauwe, da
Universidade Leuven, em um texto escrito para o Centre for European
Policy Studies: “a origem da crise da dívida dos governos é a
prodigalidade de amplos segmentos do setor privado, e do setor
financeiro, em particular. Os mercados financeiros financiaram a orgia
e, agora, em pânico, estão se recusando a financiar a faxina
resultante”.
Agora os governos se empenham em lidar com as
seqüelas, escreve Martin Wolf. “Ao insistir em afirmar que não haverá
calotes, porém, estão protegendo o setor financeiro da sua estupidez. Em
vez disso, espera-se que os povos dos países endividados paguem. Será
que esse trato comprovará ser aceitável, na ausência de um retorno ao
crescimento nos países afetados? Dificilmente”, conclui o analista. Para
ele, a orgia do setor financeiro também traz como conseqüência a
necessidade de uma profunda reforma na zona do euro. Mas é impossível
pensar em um retorno às moedas nacionais, adverte, pois isso provocaria a
implosão do sistema financeiro. O fato é que a Europa ingressou numa
zona de forte turbulência e, para variar, quem está pagando a conta é o
setor público e os trabalhadores.

