Há um esforço de setores da sociedade em apagar a ditadura da história do país, diz filósofo
Brasília - Após a Segunda Guerra Mundial, os judeus sobreviventes revelaram que seus carrascos asseguravam que ninguém acreditaria no que havia ocorrido nos campos de concentração. A história, no entanto, não cumpriu o destino previsto pelos nazistas, muitos foram condenados e o episódio marca a pior lembrança da humanidade.
Crimes
cometidos em outros momentos de exceção também levaram violadores de
direitos humanos a serem interrogados em comissões da verdade e punidos
por tribunais, como na África do
Sul, em Ruanda, na Argentina, no Uruguai e Paraguai.
Para filósofo Vladimir
Safatle, professor da Universidade de São Paulo (USP), há
um lugar que resiste à memória do horror e a fazer justiça às vítimas: o Brasil. Nenhum agente do
Estado ditatorial (1964-1985), envolvido em crimes como sequestro,
tortura, estupro e assassinato de dissidentes políticos, foi a
julgamento e preso.
Em março, será lançado o livro O Que Resta da Ditadura (editora Boitemço), organizado por Safatle e Edson Teles. A obra tenta entender como a impunidade se forma e se alimenta no Brasil. Para Safatle,o Brasil continua uma democracia imperfeita por resistir a uma reavaliação do período da ditadura militar (1964-1985) e por manter uma relação complicada entre os Três Poderes.
Agência Brasil: O Brasil tem alguma dificuldade com o seu passado?
Vladimir
Safatle: Existe um esforço de vários setores da sociedade em apagar a
ditadura, quase como se ela não tivesse existido. Há leituras que tentam
reduzir o período à vigência do AI-5 [Ato
Institucional nº 5],
de 1968 a 1979. E o resto seria uma espécie de democracia imperfeita,
que não se poderia
tecnicamente chamar de ditadura. Ou seja, existe mesmo no Brasil um
esforço muito diferente de outros países da América Latina,
que passaram por situações semelhantes, que era a
confrontação com os crimes do passado. É a ideia de anular simplesmente
o caráter criminoso de um certo passado da nossa história.
ABr: Há quem diga que o Brasil não teve de fato uma ditadura
clássica depois de 1964, mas sim uma "ditabranda" se comparada à da Argentina e a do Uruguai, por exemplo.
Safatle: Essa leitura é do mais clássico cinismo. É inadmissível para
qualquer pessoa que respeite um pouco a história nacional. Afirmar que
uma ditadura se conta pela quantidade de mortes que consegue
empilhar numa montanha é desconhecer de uma maneira fundamental o que
significa uma ditadura para a vida nacional. A princípio, a quantidade
de mortes no Brasil é muito menor do que na Argentina. Mas é preciso notar como a ditadura
brasileira se perpetuou. O Brasil é o único país da América Latina
onde os casos de tortura aumentaram após o regime militar. Tortura-se mais hoje do que durante aquele regime. Isso
demostra uma perenidade dos hábitos herdados da ditadura militar, que é muito mais nociva do que a simples contagem de mortes.
ABr: Qual o reflexo disso?
Safatle: Significa um bloqueio fundamental do desenvolvimento social e
político do país. Por outro lado, existe um dado relevante: a ditadura
de certa maneira é uma exceção. Ela inaugurou um regime extremamente
perverso que consiste em utilizar a aparência da legalidade para
encobrir o mais claro arbítrio. Tudo era feito de forma a dar a
aparência de legalidade. Quando o regime queria de fato
assassinar alguém, suspender a lei, embaralhava a distinção entre estar
dentro e fora da lei. Fazia isso sem o menor problema. Todos viviam sob um arbítrio implacável que minava e corroía
completamente a ideia de legalidade. É um dos
defeitos mais perversos e nocivos que uma ditadura pode ter. Isso, de uma maneira muito peculiar, continua.
ABr: Então, a semente da violência atual do aparato policial foi plantada na ditadura?
Safatle: Não é difícil fazer essa associação, pois nunca houve uma
depuração da estrutura policial brasileira. É muito fácil encontrar
delegados que tiveram participação ativa na ditadura militar, ainda
em atividade. No estado de São Paulo, o ex-governador Geraldo Alckmin indicou um
delegado que era alguém que fez parte do DOI-Codi [Destacamento de
Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna]. Teve
toda uma discussão, mas esse debate não serviu sequer para ele voltasse
atrás na nomeação. Se você levar em conta esse tipo de perenidade dos próprios
agentes que atuaram no processo repressivo, não é difícil entender
por que as práticas não mudaram.
ABr: Estamos atrás de outros países, como Argentina e África do Sul, na investigação e julgamento de crimes cometidos pelo Estado?
Safatle: Estamos aquém de todos os países da América Latina. Nosso problema não é só não ter constituído
uma comissão de verdade e justiça, mas é o de que ninguém do regime militar foi
preso. Não há nenhum processo. O único processo aceito foi o da
família Teles contra o coronel [Carlos Alberto Brilhante] Ustra, que
foi uma declaração simplesmente de crime. Ninguém está
pedindo um julgamento e sim uma declaração de que houve um crime. Legalmente, sequer existiram casos de tortura, já que não há
nenhum processo legal. E levando em conta o fato de que o Brasil tinha
assinado na mesma época tratados internacionais, condenando a tortura,
nossa situação é uma aberração não só em relação à Argentina e à África
do Sul, mas em relação ao Chile, ao Paraguai e ao Uruguai.
ABr: Que expectativa o senhor tem quanto ao funcionamento da
Comissão Nacional da Verdade, prevista no Programa
Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), para apurar crimes da ditadura?
Safatle: Uma atitude como essa é a mais louvável que poderia ter acontecido
e merece ser defendida custe o que custar. O trabalho feito pelo
ministro Paulo Vannuchi [secretário dos Direitos Humanos, da
Presidência da República] e pela Comissão de Direitos Humanos é da mais alta relevância nacional. Acho que é muito difícil
falar o que vai acontecer. A gente está entrando numa
dimensão onde a memória nacional, a política atual e o destino do nosso
futuro se entrelaçam. Existe uma frase no livro 1984, de George Orwell,
que diz: “Quem controla o passado controla o futuro”. Mexer com
esse tipo de coisa é algo que não diz respeito só à maneira que o dever
de memória vai ser institucionalizado na vida nacional, mas à maneira com que o nosso futuro vai ser decidido.
ABr: Mas, antes mesmo da criação da Comissão da Verdade, os debates já estão muito acalorados.
Safatle: O melhor que poderia acontecer é que se acirrassem de fato as
posições e cada um dissesse muito claramente de que lado está. O país está dividido desde o início. Veja a
questão da Lei da Anistia. O programa do governo [PNDH 3]
em
momento algum sugeriu uma forma de revisão ou suspensão da lei. O que
ele sugeriu foi que se abrisse espaço para a
discussão sobre a interpretação da letra da lei. Porque a anistia não
vale para crimes de sequestro e atentados pessoais. A confusão que se
criou demonstra muito claramente como a sociedade brasileira precisa de
um
debate dessa natureza, o mais rápido possível. Não dá para suportar que
certos segmentos da sociedade chamem pessoas foram ligadas a esses
tipos de atividades de “terroristas”. É
sempre bom lembrar que no interior da noção liberal de democracia,
desde John Locke [filósofo inglês do século 17], se aceita que o cidadão tem um direito a se contrapor
de forma violenta contra um Estado ilegal. Alguns estados nos Estados Unidos também preveem essa situação.
ABr: O termo “terrorista” é usado por historiadores que não têm
qualquer ligação com os militares e até mesmo por pessoas que participaram
da luta armada. Usar a palavra é errado?
Safatle:
Completamente. É inaceitável esse uso que visa a criminalizar
profundamente esse tipo de atividade que aconteceu na época. A ditadura foi um estado ilegal que se impôs através da
institucionalização de uma situação ilegal.
Foi resultado de um golpe que suspendeu eleições, criou
eleições de fachada com múltiplos casuísmos. Podemos contar as vezes
que o Congresso Nacional foi fechado porque o Executivo
não admitia certas leis. O fato de ter aparência de democracia porque tinham algumas eleições pontuais,
marcadas por milhões de casuísmos, não significa nada. No Leste Europeu também existiam eleições que eram marcadas desta mesma
maneira.Um Estado que entra numa posição ilegal
não tem direito, em hipótese alguma, de criminalizar aqueles que lutam
contra a ilegalidade. Por trás dessa discussão, existe a tentativa de
desqualificar a distinção clara entre direito e Justiça. Em certas
situações, as exigências de Justiça não encontram lugar nas estruturas
do Direito tal como ele aparecia na ditadura militar. Agora, existem
certos setores que tentam aproximar o que aconteceu no Brasil do que
houve na mesma época na Europa, com os grupos armados na Itália e na Alemanha. As situações são totalmente
diferentes porque nenhum desses países era um Estado ilegal. E não há
casos no Brasil de atentado contra a população civil. Todos
os alvos foram ligados ao governo.
ABr: Os assaltos a banco não seriam atentados às pessoas comuns que estavam nas agências?
Safatle: Todos os que participaram a atentados a bancos não foram
contemplados pela Lei da Anistia e continuaram presos depois de 1979. Pagaram
pelo crime. Isso não pode ser utilizado para bloquear a
discussão. Dentro de um processo de legalidade, de maneira
alguma o Estado pode tentar esconder aquilo que foi feito por cidadãos
contra eles, como se fossem todos crimes ordinários. Se um assalto a
banco é um crime ordinário, eu diria que a luta armada, a luta contra
o aparato do Estado ilegal, não é. Isso faz parte da nossa noção
liberal de democracia.
ABr: Que democracia é a nossa que tem dificuldades de olhar o passado?
Safatle: É uma democracia imperfeita ou, se quisermos, uma
semidemocracia. O Brasil não pode ser considerado um país de
democracia plena. Existe uma certa teoria política que consiste em
pensar de maneira binária, como se existissem só duas categorias:
ditadura ou democracia. É uma análise incorreta. Seria
necessário acrescentar pelo menos uma terceira categoria: as
democracias imperfeitas.
ABr: O que isso significa?
Safatle: Consiste em dizer basicamente o seguinte: não há uma
situação totalitária de estrutura, mas há bloqueios no processo de
aperfeiçoamento democrático, bloqueios brutais e muito visíveis. Existe uma versão relativamente difundida de que a
Nova República é um período de consolidação da democracia brasileira. Diria que não é verdade. É um
período muito evidente que demonstra como a democracia brasileira
repete os seus impasses a todo momento. O primeiro presidente eleito recebeu um
impeachment, o segundo subornou o Congresso para poder passar um emenda
de reeleição e seu procurador-geral da República era conhecido por
todos como “engavetador-geral”, que levou a uma série de casos de
corrupção que nunca foram relativizados. O terceiro presidente eleito
muito provavelmente continuou processos de negociação com o Legislativo
mais ou menos nas mesmas bases. Chamar isso de consolidação da
estrutura democrática nacional é um absurdo. Os poderes mantêm uma relação problemática, uma
interferência do poder econômico privado nas decisões de
governo. Um sistema de financiamento de campanhas eleitorais que todos
sabem que é totalmente ilegal e é utilizado por todos os partidos sem
exceção.

