Secretário de Relações Internacionais da CTB é o novo vice-presidente da ITF
O secretário de Relações Internacionais da CTB, Severino Almeida, acaba de assumir a vice-presidência para as Américas da Federação Internacional de Trabalhadores em Transporte (ITF, na sigla em inglês). Ele retornou na semana passada do México, onde foi realizado o Congresso da entidade.
Severino assume o novo cargo por um período de quatro anos. Ele assegura que pretende permanecer na vice-presidência da ITF por apenas este mandato, fase na qual ele pretende valorizar ainda mais a ITF no cenário internacional.
Confira abaixo a entrevista:
Quatro anos de mandato, não vou repetir “bastam quatro anos”
Portal CTB - Após retornar do México, quais são suas impressões a respeito do Congresso recém-realizado pela ITF?
Severino - A representatividade do Congresso não foi excepcionalmente elevada, embora tenha sido maior do que a expectativa inicial, com mais de 1500 delegados de todo o mundo. Demonstrou claramente que na área de transporte a ITF tem um papel importante a ser cumprido. Com a magnitude da ITF, você não pode esperar que ela tenha um pensamento único – existe uma gama muito grande de visões.
Eu acho que para nós o mais importante foi ver nossa região, as Américas – particularmente aquela parte mais identificada conosco, do México para baixo – ter demonstrado como nunca uma unidade muito grande nesse Congresso. Digo isso não-somente pelo apoio unânime ao nosso nome para representá-los como vice-presidente, mas sim porque em todas as matérias discutidas na área de transporte nós alcançamos a unidade de posicionamento. Esse foi o quarto Congresso do qual participo e sinto que houve um avanço na região no sentido da construção de uma unidade muito forte.
Portal CTB - Com que tarefas você assume o cargo de vice-presidente das Américas da ITF?
Severino - Minha principal prioridade como vice-presidente é fazer parte do chamado Comitê Executivo, que é o mais alto estágio de comissão diretiva da ITF. Estão em nosso encargo diversos aspectos extremamente conflitantes nos dias de hoje. Entre esses aspectos está a discussão sobre investimentos da ITF, tendo em vista que ela é uma entidade que maneja uma quantidade financeira elevada de seus associados. Hoje temos pouco mais de R$ 100 milhões em um fundo social, com aportes muito grandes anualmente. Ou seja, em qualquer instituição de representação sindical que tenha que conviver com uma realidade de decisões de investimento que ultrapassam dezenas de milhões de reais ao ano, não é fácil administrar os vários interesses e prioridades decorrentes dessa situação.
Assim sendo, é evidente que vou priorizar dois aspectos: o primeiro deles é não tornar a ITF tão interessada na discussão de negociações coletivas que deságuem em recursos para a manutenção das estruturas sindicais. Hoje, no mundo, mais e mais sindicatos estão se organizando a partir de uma dependência muito grande de financiamento, por conta de negociações coletivas e também por obtenção de acordos coletivos celebrados. Isso tem, evidentemente, aspectos positivos, mas no meu entendimento os aspectos negativos são muito piores, pois para os grandes empregadores a melhor forma de afetar a estrutura e a saúde financeira da organização sindical é dificultar ao máximo a celebração de um acordo coletivo de trabalho. Então, na nossa visão, o movimento sindical não pode caminhar nessa direção.
O segundo aspecto se refere a uma busca de valorização maior de nossa organização sindical no cenário mundial. Explico melhor: o latino, de modo geral, é visto de uma forma mal compreendida.
Portal CTB - Ainda existe essa imagem?
Severino - Muito. Ele é muito pouco compreendido. Para eles, de outras partes do mundo, falamos demais – e essa é uma visão que me incomoda muito. Há uma sensação de que falamos muito, mas produzimos pouco. Temos diversas organizações sindicais que estão muito longe desse perfil.
Seria muito importante que o mundo olhasse para nossa região como um avanço impressionante, comparativamente falando nas relações sociais, especialmente no que diz respeito à valorização do trabalho e à participação do trabalhador na disputa do poder em seus países. Isso seria muito importante desenvolver.
Portal CTB - O novo secretário-geral da ITF, David Cockroft, disse em recente artigo que o Congresso foi o mais bem sucedido da história. Você entende que a visão dele é um pouco exagerada?
Severino - Se o David dissesse alguma coisa ao contrário disso, eu diria que ele está enlouquecendo. Ele, como secretário-geral, tem que ver os aspectos positivos do Congresso, especialmente com a magnitude obtida. O fato de haver disputa interna em relação à presidência traz aspectos positivos e negativos, como em qualquer disputa. Eu prefiro, quando trato de entidades de grau superior, especialmente de nível internacional, que as diferenças internas sejam mais bem tratadas na busca e na conquista da unidade interna – essa é uma visão muito forte nossa. Entendo que quando há a necessidade de medir forças, as consequências negativas são piores do que os aspectos positivos do exercício da democracia.
Portal CTB - Como se dá atualmente, dentro da ITF, a correlação de forças entre os sindicatos ligados ao setor de marítimos e outros? A disputa é muito intensa?
Severino - Falar da ITF e de sua complexidade em pouco tempo, com poucas palavras, é uma tarefa quase impossível, ainda mais por haver um peso muito grande de intimidade dos assuntos.
Eu, por exemplo, me considero um especialista na área marítima, mas tenho um conhecimento satisfatório nesse setor internacionalmente. Eu seria leviano, no entanto, de falar sobre os setores rodoviário e ferroviário em nível internacional. No entanto, o que é perceptível dentro da família ITF, é que, como ela surgiu dentro nos portos e nos mares – seus primeiros sindicatos foram portuários e marítimos –, esses sindicatos, além de terem uma participação muito importante na ITF, são os responsáveis por oferecer as melhores condições de recolhimento de recursos em favor dos trabalhadores representados pela ITF.
No momento, eu diria que me preocupa um pouco a ideia de que possa haver uma predominância de nosso setor em relação a outros. Esse tipo de visão, de insatisfação, pelo peso que o setor marítimo tem na ITF, já começa a emitir sinais de que precisamos ter atenção nessa diferença de peso. A ITF não pode existir apenas para os marítimos e os portuários. Evidentemente todos precisam se sentir acolhidos e fortalecidos pela ajuda mútua e solidária que há dentro da ITF.
Portal CTB - Tratemos por alguns instantes da CTB. Que análise você faz atualmente da atuação da Central em nível internacional?
Severino - A análise que eu faço é que a CTB ainda é muito jovem para marcar a história do movimento sindical em nível mundial. A CTB existe e é reconhecida como uma central importante na região – isso eu não tenho a menor dúvida. Mas você não pode comparar o papel e a influência de uma organização sindical como a nossa, que está ainda por completar seu terceiro ano de vida, por mais importante que ela seja, com algumas que já vêm nessa luta por décadas. Eu diria que estamos caminhando muito bem, até melhor do que esperávamos, se olharmos o curto espaço de tempo. Especialmente na América Latina, é incontestável o papel que exercemos na região, não apenas pelo papel exercido nos encontros internacional, como o Encontro Sindical Nossa América, mas também no papel de conduzir a pauta a ser debatida. A CTB já não pode ser esquecida sempre que se discutir a pauta da região. Eu diria que essa é uma conquista excepcional.
No cenário fora da América Latina, eu diria que também fizemos avanços significativos, embora seja compreensível a dificuldade de se gerar uma referência forte no sindicalismo internacional.
Uma coisa é você falar para os companheiros que falam espanhol, com referências muito próximas, enquanto é muito difícil fazer o mesmo em outras línguas. Esse é um processo que leva muito mais tempo.
E nós, por opção, fizemos uma filiação à Federação Sindical Mundial (FSM), mesmo diante da clara hegemonia da CSI na representação dos trabalhadores e das trabalhadoras em nível internacional.
Não procuramos nos confundir com essa hegemonia, mas sim construir um espaço totalmente diferenciado, dentro de uma visão classista, que por si só nos traz dificuldades naturais pelo aspecto que acreditamos, pois precisamos ter lado nesse debate.
Portal CTB - Nesse aspecto, você considera que o próximo Congresso da FSM, em abril, será um passo importante para a atuação internacional da CTB além do continente americano?
Severino - Nesse Congresso o mais importante não será a CTB expandir essa referência. O mais importante é a CTB contribuir para um alargamento, uma ampliação de visão da FSM, que precisa ser menos compacta dentro de seus princípios históricos e visão da história. O mundo, ao mudar, exige que nós também aprendamos a mudar sem abandonar nossos princípios.
Fernando Damasceno – Portal CTB

