X Reaf: Democracia passa por acesso à terra e mudança do modelo agrícola
Reunidos na X Reaf, representantes dos governos e de organizações da sociedade civil dos países do Mercosul pedem o fortalecimento da agricultura familiar na América Latina. Presidente do Incra afirma que implementação de novos modelos é prioridade da reforma agrária no Brasil.
Maurício Thuswohl
RIO
DE JANEIRO – O resgate da função social da terra, a busca por um modelo
sustentável de produção e a necessidade de adoção de políticas públicas
que permitam a efetiva democratização do acesso à terra nos países da
América Latina estão entre os temas mais debatidos da X Reunião
Especializada sobre Agricultura Familiar do Mercosul (Reaf), que
acontece até 27 de novembro no Hotel Guanabara, no Rio de Janeiro. Na
segunda-feira (24), foram realizados dois seminários que reuniram
representantes dos governos ou de organizações da sociedade civil de
Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Paraguai, Uruguai, Chile e
México (convidado).
Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, em entrevista exclusiva à Carta Maior,
comemorou a realização da X Reaf: “Esse encontro é muito importante
porque traz o tema da reforma agrária e do acesso à terra na América
Latina e no âmbito do Mercosul. Isso é muito importante neste momento
em que nós vivemos várias crises mundiais: de energia, de alimentos, a
crise financeira do capital. O acesso à terra é uma das condições para
o desenvolvimento da América Latina”, disse.
Hackbart afirmou
que o fortalecimento da agricultura familiar é tarefa fundamental para
garantir o desenvolvimento sustentável dos países do Mercosul: “No
Brasil, eu não tenho dúvida, a única saída para o país é desenvolver o
mercado interno. De que maneira? Desenvolvendo o meio rural e
distribuindo terra, crédito e assistência técnica como uma das formas
de as pessoas não virem todas para os grandes centros urbanos”, disse.
A
crise econômica, segundo o presidente do Incra, deve intensificar a
luta pela terra: “No Brasil, os interesses pela terra aumentam muito e,
na minha opinião, isso vai continuar. O grande desafio que temos no
Incra é saber quais valores públicos devemos percorrer, devemos buscar.
No nosso entendimento, o acesso à terra é um deles. A viabilização dos
assentamentos rurais é outro. Apesar de todas as adversidades que
encontramos na legislação e no Poder Judiciário, nós vamos percorrer
esse caminho, sempre tendo presente que nosso principal objetivo é a
mudança do modelo de agricultura em nosso país”.
Essa mudança
passa pelo combate ao modelo erigido pelo agronegócio: “Uma das metas
centrais da reforma agrária hoje no Brasil é conseguir implantar nos
assentamentos novos modelos de agricultura que não sejam baseados na
monocultura, no veneno, na produção de alimentos sujos, na destruição
do meio ambiente e na concentração da terra. Acho que esse pode ser uma
luta que nos una na Reaf, tanto do ponto de vista governamental quanto
do ponto de vista dos movimentos sociais”, disse Hackbart.
A
Reaf, no que depender da vontade do governo brasileiro, será o pólo
irradiador do fortalecimento de um modelo baseado na agricultura
familiar em todo o continente: “Estamos discutindo o acesso à terra, a
adoção de políticas públicas para as mulheres e o gerenciamento de
risco para a agricultura familiar. Acho esta última discussão muito
importante, já que este modelo do agronegócio é dominante. Neste
momento, e enquanto ele não for mudado, devemos pensar em como garantir
segurança para a produção da agricultura familiar e da reforma
agrária”, disse o presidente do Incra.
Pontos em comum
Rolf
Hackbart disse que os pontos em comum entre os países
latino-americanos, sobretudo aqueles que integram o Mercosul, são
grandes: “As situações são muito parecidas em termos de legislação,
mas, principalmente, do ponto de vista econômico. É o mesmo modelo de
agricultura que concentra a propriedade, que expulsa o trabalhador da
terra, que produz com veneno. É isso que nós precisamos mudar. É
preciso garantir renda para a produção de alimentos limpos e garantir o
acesso à terra. Essa é a principal função do Incra”, disse.
Hackbart
fez um balanço positivo da trajetória da Reaf, que se reuniu pela
primeira vez em 2004: “A principal evolução até aqui é o fortalecimento
dos movimentos sociais, o que não é uma coisa fácil. Os movimentos
estão se falando, estão se reunindo entre países há décadas para
identificar pontos em comum. Aos poucos, os governos progressistas da
América Latina começam a trocar experiências e a fechar convênios numa
mesma linha de fortalecimento da organização social e de mudança do
modelo agrícola”.
Dois seminários
Na segunda-feira
(24) foram realizados os dois primeiros seminários previstos na X Reaf.
Um deles teve o tema “Função Social da Terra – Concentração,
Estrangeirização e Uso da Terra”, e reuniu à mesa de debates
representantes de Brasil, Paraguai, Uruguai e Chile. O outro seminário
teve como tema “Gestão de Risco no Contexto da Segurança Alimentar e o
Desafio das Mudanças Climáticas”, e, em seus debates, contou também com
a participação de um representante mexicano.
Secretário de
Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA),
Adoniram Sanches afirmou que os pequenos agricultores, que respondem
por 60% da produção dos alimentos consumidos na América do Sul, são os
mais vulneráveis às mudanças climáticas: “É importante que haja um
conjunto de políticas de seguro agrícola para que o agricultor atingido
por esses eventos possa se precaver e evitar prejuízos a sua produção”,
disse.
Carta Maior

