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Bem além de Bolsonaro

Óbvio que, no mundo do capital, as esquerdas ocupam posição contra-hegemônica, por isso mesmo as diferenças, as dificuldades nas disputas na arena da democracia liberal são infinitamente maiores e mais complexas do que para os grupos de direita.

Na comparação com o futebol, os donos do dinheiro jogam dentro de casa, com torcida única e a polícia doida para dar umas cacetadas nos desafiantes, sejam jogadores ou torcedores. Tem sido assim ao longo da história brasileira. Vem da raiz colonial e escravagista.

As elites sempre acham que podem tudo. Engraçado é que elas mesmas criam as regras, passam o tempo todo com o poder nas mãos, mas quando, por descuido ou desgaste normal do processo político, perdem a eleição, aí imediatamente começam a conspirar para violar as leis que sempre exaltaram como inexpugnáveis. Derrotadas, nunca hesitam em violenta-las, sem o menor pudor.

Vide a proclamação da República (1889), o suicídio forçado de Getúlio Vargas (1954), a posse de João Goulart, “Jango” (1961), a ditadura civil militar (1964) e o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016 com o impeachment de Dilma Rousseff, sem comprovado crime de responsabilidade. No Brasil, sempre que um projeto político se aproximou minimamente do povo, foi golpeado pelas elites. E toda vez com o argumento de combate à corrupção. É o mantra golpista.

A atual conjuntura nacional, que já não era boa, se agravou, do ponto de vista dos direitos e das liberdades, com a eleição de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara Federal. Não que Rodrigo Maia (DEM-RJ) tenha sido exemplo de democrata, mas também não foi um serviçal absoluto, um vassalo. No Senado, o presidente Rodrigo Pacheco (DEM-MG) é uma incógnita. Certo mesmo é que a agenda econômica ultraliberal será intensificada.

O cenário atual indica que a tendência é a governabilidade alcançar alguma estabilidade, o que impõe desafios que vão exigir mais habilidade e sabedoria das forças progressistas. Três das trágicas pautas prioritárias do Legislativo, pelo menos para os trabalhadores e as camadas mais pobres da população, definidas em comum acordo com o Executivo, incluem liberação total das armas, licença para matar e mineração em terras indígenas. Resumindo, despotismo de mercado amparado no Estado policial, ou seja, endurecimento do regime.

A discussão se Bolsonaro sai fortalecido ou não com as eleições no Parlamento, se agora está mais ou menos dependente do Centrão, não parece a melhor abordagem, pois não se trata de pessoas, mas de projeto de poder. O que está em jogo hoje no Brasil, se é que assim se pode chamar uma disputa marcada pela lei do mais forte, na qual um lado tem direito a tudo e outro nem à Justiça, é o projeto ultraliberal, centrado no Estado mínimo para o povo e máximo para o capital, com privatizações lesa-pátria, contra a democracia social, que defende a desconcentração da riqueza e a soberania nacional. Isso, claro, nos marcos do capitalismo. Falar em comunismo e globalismo de esquerda só na acefalia bolsonarista, na estupidez negacionista.

As eleições no Congresso são mais uma lição de que as forças progressistas podem até confiar em alianças com a direita perfumada, que se diz não negacionista, para questões pontuais como vacinação, auxílio emergencial e outras, mas se for para o plano eleitoral, para a mudança de regime, além de difícil e complicado, todo cuidado é pouco. Para não sofrer nova traição.

Muita gente bem intencionada, com boa formação, alega que sem uma aliança mínima com segmentos menos trogloditas do capital não é possível derrotar o neofascismo bolsonarista. Não está de toda errada. Mas também, a dúvida e a insegurança se maximizam com fatos como ocorridos agora, na Câmara. Ou seja, na defesa da agenda ultraliberal, a direita e a extrema direita se unificam sem problema, independentemente de Bolsonaro.

* Texto publicado originalmente no site do Sindicato dos Bancários da Bahia (www.bancariosbahia.org.br)

rogaciano medeiros edaef  Rogaciano Medeiros é jornalista.

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