Terceirização ilícita ou nepotismo no Banese
A
‘terceirização’ de atividades profissionais é um fenômeno que traz profundo
impacto nas relações do trabalho. A escala terceirizante é avassaladora e hoje
estende-se por amplos setores da economia, atingindo especialmente
os serviços de vigilância, telefonia, transporte, alimentação,
administração de pessoal, manutenção, jurídicos, comunicação
social, e pasmem até as atividades bancárias.
A terceirização
vem acompanhada de profunda repercussão social, política e econômica, na vida de
milhões de cidadãos brasileiros, trabalhadores, diretamente atingidos por seus
efeitos. Tem como justificativa e pano de fundo a redução dos custos
empresariais, conforme se anuncia, que são espetaculares, assim como também o é
a redução dos empregos diretos, e fundamentalmente a crescente precarização das
condições de trabalho.
Em
2006, a partir de demanda da Confederação dos Bancários, o Ministério do
Trabalho vistoriou vários bancos que foram denunciados por estarem terceirizando
atividades fins, culminando em autuações de R$ 10 milhões em três bancos
privados. Além disso, o Ministério do Trabalho reconheceu como bancários todos
os trabalhadores que prestavam serviços terceirizados aos bancos e ordenou que
eles fossem registrados como tal, concluindo então o MT pelo
que chamou de “Ilicitude da
terceirização”.
No setor
público e de economia mista, rechaça-se qualquer possibilidade de terceirização,
por ser incompatível com a própria finalidade do Estado, que é a promoção do bem
comum. Além de significar porta aberta para todo tipo de fraude e corrupção, é
uma verdadeira ‘privatização’ do lucro e ‘socialização’ dos prejuízos. Ou
melhor, é uma privatização bancada com os recursos públicos.
O Banco do
estado de Sergipe – Banese -, ignorando tudo isso, vem nos últimos meses
desenvolvendo uma política agressiva de terceirização dos postos de serviço do
banco, como, por exemplo, o do IPES, do Fórum Gumercindo Bessa, do Hospital João
Alves, da Secretaria de Finanças do Município de Aracaju, do Mercado, do Bugiu e
do Detran. E isto não é correspondente bancário, estes são espaços privilegiados
que foram abertos para o ente público Banese.
Assim, as
atividades são desempenhadas com pessoalidade, habitualidade e subordinação
pelos trabalhadores ‘terceirizados’ e visam atender necessidades
permanentes e essenciais do Banese que, sem elas, não poderiam
continuar a prestar seus serviços. Considerando, ainda, que esses trabalhadores
foram contratados para a execução de atividades próprias de bancários, que a
empresa terceira, que intermedia a contratação, define
procedimentos e prazos, fiscalizando a execução, e o banco para a
operacionalidade das rotinas. É importante destacar que o banco cede e instala
máquinas e sistemas informatizados de entrada de dados, com acesso ao sistema de
informações do banco, e favorece a empresa terceira com espaços públicos
concedidos ao Banco do Estado enquanto ente público. Este não seria o caso de
tráfico de influência?
No que se refere à
ilicitude da terceirização de serviços bancários, verifica-se as precárias
condições de trabalho no tocante à remuneração, jornada de trabalho e direitos
sociais dos empregados contratados por meio da empresa prestadora de serviços.
No caso do Banese, o SEAC (Banese Card) tornou-se uma empresa intermediadora de
mão-de-obra, que está terceirizando os postos de serviços do Banco do Estado de
Sergipe, a despeito do relatório do MTE, que diz ser o processo implementado
pelos bancos uma “afronta ao princípio constitucional da dignidade da pessoa
humana, do valor social do trabalho, bem como a inteligência dos preceitos
contidos na Súmula 331 do TST e os princípios basilares do Direito de Trabalho”.
Em bom português: são bancários explorados ao extremo em desrespeito às leis.
Isto posto, para ser bancário no Banese é preciso prestar concurso público. A
direção pensa em fazer diferente?
Para garantir a
transparência e o princípio constitucional, do concurso público
como uma ‘arma’ contra a corrupção, o clientelismo, o paternalismo, ‘venda’ de
cargos e o patriarcalismo, o Sindicato dos Bancários procedeu denuncia no
Ministério Público Estadual e no Ministério Público do Trabalho, e está
preparando a devida ação civil pública contra o banco que quer privatizar o que
é público através da terceirização.
(*) Ivânia Pereira é assistente
social e diretora do Sindicato dos Bancários de Sergipe (SEEB/SE) e da Central
dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)

